Velocidade do tempo, corrida dos ratos


Flautista de Hamelin

Nessa época do ano, é comum ouvirmos que o ano passou voando. Essa afirmação seria inquestionável se o ano estivesse levando 240 dias para fazer sua volta completa em torno do sol, entretanto, continuamos levando os mesmo 365 dias e 6 horas de sempre (se algum astronomo estiver lendo isso, saiba que minha fonte foi a wikipedia, logo, se houver algum erro de aproximação das tais 6 horas, me mande os cálculos e as fórmulas usadas que, após averiguação, terei prazer em fazer a errata).

Mas voltando, se o tempo ainda é o mesmo, essa percepção de que as coisas estão passando mais depressa pode ser porque nós mudamos. Me parece que nós mudamos no sentido de vivermos ansiosos, ou melhor, num estado de ansiedade induzida. E essa ansiedade induzida é fruto da sociedade pós-moderna. Como a economia é uma grandes forças motoras da sociedade atual, torna-se necessário fazer a máquina capitalista funcionar para que o consumo aconteça, de modo que alavanque a produção de bens e serviços que, por sua vez, são comprados/contratados pelas pessoas que os geram. Certo, ai vem aquele lance de que alguns bens produzidos não podem ser adquiridos pelas pessoas que os produzem e etc, mas esse não é o foco da discussão. Ok, deixemos os princípios do capitalismo para uma outra hora.

Para criar esse estado de ansiedade induzido, o comércio, por meio dos recursos de marketing, costuma antecipar bastante a espera pela data. Daí, nossa jornada pelo ano acontece por meio de saltos:

  • Férias de janeiro e volta às aulas (para quem tem filhos): o merecido descanso pós virada de ano. Para se desfrutar dele, é preciso negociar no trabalho com quem não tem filhos ou então escalonar as datas com os outros colegas que também são pais.
  • Fevereiro é sinomino de Carnaval (Pacotes de viagem pra quem foge das cidades durante a folia, ou para quem correm em direção à folia; nesse último caso, acontece também o estímulo à compra de abadás ou fantasias, dependendo do gosto do freguês).
  • Em março/abril Semana-santa + páscoa: outros 3 dias de descanso. É uma data cheia de significado, em especial, para os cristãos e judeus. Todavia, o comércio costuma apontar o spotlight para o coelhinho da páscoa e seus, absurdamente caros, ovos de chocolate (coelho que coloca ovo?! No mínimo ele deveria ficar estéril).
  • Depois chegamos a maio, mês da noivas, mês da mães ( é mulher, o comércio pensou em tudo. Seu mês continuará sendo o mesmo, só seu status que irá mudar de noiva pra mãe): época de comprar aquele liquidificador novo com filtro para se fazer sucos ou algum outro elétrodoméstico para presentear a matriarca. Chega a soar engraçado, como se o lance de ser mãe fosse um cargo, então os presentes dados naquela data são para o exercício da função de mãe e ponto final. Tá bem, nos últimos tempos isso tem mudado de figura, com as mães cada vez mais atuantes no mercado de trabalho, fazendo sua jornada dupla(trabalhando fora e cuidando da família), tripla(trabalhando fora, cuidando da família e cuidando de si também) e por aí vai. Repare ano que vem, se você vê mais propagando de artigos para o lar ou mais propagandas para a mulher que também é mãe. Ah sim, para as noivas, o comércio até que faz certa movimentação, mas não chega a se comparar com o assédio dado às mamães, afinal, amor de mãe é incomparável né e outra, mãe só se tem uma (vivas os clichês que traduzem tão bem o que gostaríamos de dizer, assim como aquelas mensagens pré-definidas que se tem no celular: “desculpe, vou me atrasar” ou “estou ocupado, te ligo mais tarde” – momento dispersão ). Voltando às noivas, casamentos acontecem todo o tempo. Sendo assim, não é preciso precisa fazer propaganda pra pessoa se casar, basta deixar que o cupido faça sua parte, para depois faturar em cima dos sonhos e anseios da vida nova do casal (e olha que o cupido não recebe comissão ou participação nos resultados, apesar de ser o frente de loja).
  • Junho, mês dos namorados: época de se comprar algo bacana pra quem se gosta e reafirmar seu amor. De passeios a jantares, vale tudo, menos esquecer o dia 12. Senão, pode acontecer demissão da relação por justa causa.
  • Julho: época de férias novamente, quase tudo que eu escrevi sobre janeiro pode ser aplicado aqui, então vamos adiante.
  • Agosto, mês dos pais: época de crescimento acentuado na venda de gravatas. Mas os pais também costumam ganhar furadeiras, kit de ferramentas, conjunto fechado com 6 cuecas ou 6 meias comprados em loja de departamento. Um presente que eu imagino que muitos pais iriam gostar, inclusive o meu, seria um ganhar um coolers e assim esfriar a cabeça nessa segunda parte do ano.
  • Outubro, mês das crianças: se a mamãe já ganhou sua enceradeira, se o papai já ganhou seu kit churrasco(jogo de facas + avental do corinthians), então é época dos pequeninos também contribuirem para o crescimento do PIB. Mas de que jeito: com carrinhos da hot wheels, casinhas da poly pocket e tantos outros brinquedos, sejam eles vinculados a séries animadas como o max steel, ou não, vinculadas a filmes (já viu os bonequinhos do Avatar?).
  • Em dezembro, temos o natal: mais uma data cheia de significado para os cristãos que tem seu sentidoum pouco completamente alterado para o lance dos presentes. Se não ficar atento, acaba ficando em segundo plano que o sentido da data é o nascimento de Cristo e não a descida do papai noel pela chaminé (sendo que chaminé no Brasil é algo meio incomum né?! ).

Bem, é possível que eu tenha esquecido alguma data nesse passeio pelo calendário, mas o fato é: as preparações para tais acontecimentos acontecem cada vez mais cedo. O motivo disso me parece claro: se você pode vender por dois meses usando como motivo o natal, por que venderia durante apenas um mês? O cliente vai ficar mais feliz, pois se ele gastar R$300,00, pode dividir para 2 meses e chegar ao natal com tudo pago, em vez de queimar o 13° salário todo num mês só. O mesmo raciocínio vale para as outras datas.

Com o aumento expressivo da concorrência no mercado, o aumento do período de venda ajuda a equilibrar as coisas. Com mais tempo, o consumidor consegue ir a mais lojas, seja para pesquisar, seja para torrar o dinheiro em todas elas.

Dependendo do acontecimento, a coisa começa absurdamente antes. Nessa semana recebi uma oferta de um cartão de crédito comemorativo da copa do mundo no Rio de Janeiro. Mas poxa, o negócio vai ser daqui a praticamente 5 anos. Como que eles já querem me enfiar garganta abaixo um cartão para eu conseguir vantagens durante a copa?! Queria entender o que se passa na cabeça do pessoal do marketing, eles são os culpados dessa correria em que vivemos. Tá, não diria culpados, mas são os compositores da melodia que o comércio toca para que os sigamos. Esse conceito é uma analogia ao conto do Flautista de Hamelin, que numa das partes do conto, toca uma canção e os ratos, meio que hipnotizados, o vão seguindo pelo caminho (bem legal esse conto dos irmãos Grim, se você não conhece, leia que vale a pena – mais um devaneio: sinto falta desses contos infantis, quando as histórias para crianças eram, de fato, infantis, sem esse lance de vampiros ou bruxinhos jogando futebol em cima de vassouras, a vida parecia ser mais simples antes).

Ainda falando de seguir algo sem questionar o motivo, ouvi certa vez uma estória sobre a corrida dos ratos: em que durante uma obra nos esgotos de uma cidade, foi feito um buraco bem grande. Nisso, quando as máquinas se movimentavam pelos esgotos, os ratos ficavam assustados e saiam correndo pelos túneis e em direção ao buraco, em vez de pegar canaletas laterais para escapar. Como era uma “manada” de ratos(qual é o coletivo de ratos?), eles acabavam caindo no buraco e não conseguiam escapar. Daí a construtora responsável pela obra fazia o controle da zoonose(também conhecido por geno-rato-cídio). A conclusão da estória era: quantas vezes nós também não estamos sendo levados pela maré, no meio da corrida dos ratos? Será mesmo que queremos seguir na mesma direção dos outros? Temos um bom motivo para isso? Refletir sobre essas coisas ajuda a ter um pouco mais de controle sobre nossa vida.

Tem uma música do Placebo sobre esse tema da corrida dos ratos que diz assim:

Slave to the wage

“Fuja de todo o seu tédio
Fuja de todo a sua prostituição
E dê adeus a suas preocupações e precauções

Só é necessário uma decisão
Muita coragem, um pouco de visão
Para dar adeus a suas preocupações e precauções

Refrão:
É um labirinto para os ratos experimentarem
É um labirinto para os ratos experimentarem
É uma corrida
Uma corrida para ratos
Uma corrida para os ratos morrerem
É uma corrida
Uma corrida para ratos
Uma corrida para os ratos morrerem”

Bem, era isso, comemore quando tiver que comemarar, não vá na onda do comércio. E principalmente, fuja da corrida dos ratos, em todos os aspectos da sua vida.

E um feliz natal.

ps.: eu contei a corrida dos ratos como a ouvi, mas me parece que esse post aqui tem mais detalhes sobre o assunto. Dê uma olhada lá.

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4 pensamentos sobre “Velocidade do tempo, corrida dos ratos

  1. Muito bom seu texto. Concordo que vivemos meio(muito)alienados pela enxurrada de comerciais e outros artifícios que nos fazem gastar demais e fortalecer o capitalismo. Precisamos parar de ouvir a música, por pelo menos algum tempo, para refletirmos, até mesmo, sobre valores que deixamos de lado (que por sinal, já foram expostos aqui nesse blog).

    Curiosidades:
    – Não achei o coletivo de ratos, mas encontrei uma explicação para sua ausência no dicionário: “…Como grupo e manada (é ruim!) de ratos não dá, usamos bando, ou coisa semelhante…” (fonte:http://198.106.73.59/05/05_coletivo.htm);

    – Sobre os contos infantis também sinto falta, mas a novidade é que, pra quem gosta, ouvi dizer que farão uma nova versão do antigo filme, agora com Dakota Fanning. É esperar pra ver se agrada.

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