o cobertor curto, administração pública


 

Cobertor curto - publicado em http://education.harpweek.com

Cobertor curto - publicado em http://education.harpweek.com

 

Estudando sobre a administração pública para tentar mestrado, vi uma série de artigos bacanas que ajudaram a entender certas coisas de hoje em dia. Dentre as coisas que li e gostei, tem o livro da Ana Paula Paes de Paula chamado “Por uma nova administração pública“. Nele, ela faz um resgate histórico, baseado em sua pesquisa (acho que de doutorado), sobre a evolução da administração pública federal e compara o modelo societista (movimentalista) com o modelo gerencialista.

Como minhas primeiras experiências de trabalho foram na iniciativa privada, ver o funcionamento da administração pública foi um choque. Vários porquês surgiram e a ausência de respostas dava impressão de estar andando numa montanha russa motivacional. Mas ver o livro da Ana Paula, indicado pela professora Teresa Janes, foi libertador por esclarecer uma série de pontos do passado que tem influência direta no presente. Pelo que é dito no livro, na década de 50, havia articulação política popular. No início da década de 60, a mobilização era tão grande a ponto de estarem perto de fazer várias ações importantes, dentre elas, a reforma agrária. Mas como alegria de pobre dura pouco, veio o golpe militar e a articulação vigente foi dispersa energicamente, permanecendo assim até o início da década de 70.  Então surgiram, timidamente, as associações de pais e mestres, as quais discutiam e deliberam sobre o que seria melhor para suas comunidades. Tais debates ganharam espaço também nas Comunidades Eclesiásticas de Base (CEB’s). Houve amadurecimento desses movimentos ao longo da década, enquanto o regime militar começava a enfraquecer e caminhava para a abertura política.

Na década de 80, o movimento das Diretas Já ganhava força e os arranjos sociais provavam de significativa organização, a ponto de participarem ativamente da constituinte de 88, por meio de representações de vários eixos da sociedade. Depois veio a eleição presidencial e deu aquela confusão toda: Lula toma um bandão nos 45 do segundo tempo da mídia marrom e o Collor entra pra depois ser retirado da presidencia e o Itamar assumir com seu super ministro que salva a lavoura com o plano econômico que finalmente consegue segurar a onda da inflação. Em 95 quando PSBD assume, mediante o sucesso da estabilidade economica que o país começava a gozar, é criado o Ministério de Administração e Reestruturação do Estado (MARE), o qual fica sobre a batuta do ex-ministro Bresser Pereira.

Bresser, inteligentemente, inicia um benchmark da administração pública pelos EUA, Reino Unido e alguns países da oceania, os quais haviam tornado sua gestão mais eficiente por meio de iniciativas observadas nas organizações privadas . Então nos anos seguintes ele propõe um modelo de funcionamento do estado pouco intervencionista (chamado de estado mínimo) que busca restringir sua atuação e melhorá-la. Daí aquela série de medidas de privatização e criação das agências reguladoras. Era a aplicação do modelo gerencialista, também chamado de Novo Gerencialismo.

Com a vitória do PT em 2002, a expectativa era de rompimento total com o Novo Gerencialismo e retomada do modelo Movimentalista, onde as decisões são tomadas coletivamente, como foi desenvolvido na década de 70 e 80. Mas, talvez, devido ao tanto de alianças que o partido teve que fazer para chegar ao poder, não foi possível romper totalmente com o gerencialismo. Então podia-se perceber o funcionamento de uma administração heterogênia – com traços de ambos modelos de gestão. O que ainda hoje é bastante fácil de encontrar na administração pública, seja na esfera municipal, estadual ou federal.

Diante desse cenário, as respostas que deixaram um pouco menos puto foram: não se pode mudar radicalmente a forma de gestão, tendo em vista a cultura organizacional; se as coisas são impostas de cima pra baixo (modelo gerencialista), há o risco da impopularidade para os gestores.  Por outro lado, ficar decidido tudo coletivamente (movimentalismo) pode ser extremamente moroso pois os interesses tendem a divergir de grupo pra grupo. Entretanto, a gestão dessa maneira passa a sensação de democracia, logo, é mais interessante se considerada a intensão de continuidade política da gestão.

Hoje, existe um défict de servidores públicos, paradoxalmente, boa parte do contingente de servidores ativos não é bem administrada. Portanto, o cenário se desenha da seguinte forma: precisa-se de mais gente para o trabalho mas o pouco que tem é mal administrado. Fazendo uma analogia à figura de abertura deste post, é como se a pessoa ficasse com frio por estar usando um cobertor curto mas não se cobrisse direito. Deixasse partes do corpo expostas não por conta do tamanho do cobertor, mas por distração mesmo.

Para uma administração pública eficiente, o grande desafio é  criar um modelo que seja tão democrático quanto eficaz. Se administrar uma casa já razoalmente complexo, considerando suas contas, pessoas, responsabilidades e etc, imagine o trabalho que não é administrar uma autarquia, ou município, ou estado ou país. Mas isso é papo para um próximo post.

Até lá.

ps.: para mais informações sobre o tema,  pesquise sobre Novo Gerencialismo.

Anúncios

3 pensamentos sobre “o cobertor curto, administração pública

  1. Diz Eros Grau, o ministro do Supremo: “O Estado, apesar dos pesares, é ainda, entre nós, o único defensor do interesse público“, e que “a destruição e mesmo o mero enfraquecimento do Estado conduzem, inevitavelmente, à ausência de quem possa prover adequadamente o interesse público e, no quanto isso possa se verificar, o próprio interesse social“.

    Concordo plenamente.

    Desmanchar o Estado, como pretende (ou pretendia, se bem que ainda estão fortes, o governo Lula é um exemplo) o ideário neoliberal é uma covardia, uma crueldade, para com as classes baixas, que não podem subsistir sem uma assistência direta estatal.

    O Estado é um instrumento, e deve ser usado como tal: um instrumento do povo, para satisfazer as necessidades públicas.

    Caso contrário, é serviço (educação, saúde, transporte, segurança!) só para quem puder pagar.

  2. Pingback: jogar a toalha « Pense sobre

  3. Pingback: tempo, passado, futuro « Pense sobre

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s