Poesia: metalinguagem existencial?


esponja

esponja

Os versos que seguem foram retirados da letra O espetáculo, da banda Cordel do Fogo Encantado.

“O espetáculo não pode parar
Quando a dor se aproxima
Fazendo eu perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma “

A arte torna a vida viável, passar uma “esponja de rima nos ferimentos da alma” é uma boa opção para um dia duro. Já falei sobre arte aqui no blog algumas vezes – da sua “concepção” ao seu “consumo” – mas hoje quero falar especificamente sobre poesia.

Me parece quase que uma lei da natureza: a beleza deverá saltar aos olhos de todo aquele que a vir, diferentemente da medusa, a pessoa não virará pedra, mas sua alegria petrificada surgirá por detrás dos lábios. A beleza afastará as nuvens do rosto e permitirá que o sorriso surja como um raio de sol num dia nublado.

Mas e a poeisa, o que é? Encontrei a definição abaixo no site da Casa da Cultura:

“Poesia é um texto em que o significante não existe meramente à serviço do significado; onde significante e significado funcionam juntos;e onde é este conjunto (e não apenas o significado) que provoca sentimentos, impressões, emoções ou reflexões.”
“Na poesia, cada palavra tem seu papel não apenas por seu significado, mas por seu ritmo, pela sua sonoridade, pela forma como se relaciona com as outras palavras, e, modernamente, até mesmo pelo seu aspecto visual…”
Essa definição tem o mérito de deixar bem claro que poesia não é só significado. Aliás, esse talvez seja o único ponto sobre o qual eu nunca vi discordância por parte de poetas ou apreciadores de poesia. Não importa o quão “poético” seja o conteúdo de um texto, se o autor o escreveu preocupado apenas com o significado – tendo apenas a sintaxe como guia – não é poesia!
Se alguém tem essa idéia de que o que realmente importa na poesia é o significado e de que o resto – o ritmo, a métrica, a rima – são detalhes, esta pessoa provavelmente teve pouco contato com poesia, e a encara como se ela fosse uma espécie rebuscada ou enfeitada de prosa. De vez em quando aparece alguém para dizer algo como: “De poesia, eu gosto do significado.”
Isso é mais ou menos como aquele americano que certa vez declarou que “gostava ser goleiro porque adorava desarmar o adversário, limpar a jogada e passar, e se possível sair driblando e marcar o gol.” O goleiro pode até fazer tudo isso, principalmente se for o Highita da Colômbia, mas nós sabemos que a função dele não é essa. A lógica de um texto não-poesia está na estrutura sintática e no significado. A lógica da poesia vai além da estrutura sintática e do significado.

Trecho da palestra “Poesia e Tradução — O papel e a importância da métrica regular na poesia; a tradução da poesia metrificada” de Carlos Salzano Masini. Confira na integra aqui.

Pra gostar de poesia, não se precisa muito, basta haver entrega, como quem olha para uma criança brincando, não há expectativas sobre o que ela vai fazer, simplesmente há graça num gesto ou outro. Na poesia, de maneira semelhante,  há graça num verso e outro, ou em seu sentido, ou na imaginação do sentido intencionado pelo autor.

Infelizmente é um costumo pouco difundido atualmente, talvez em função da estética do bizarro que se prolifera pela sociedade. De tão simples e funcional, se tornou algo desvalorizado e tido por trivial. Dizer que se gosta de poesia hoje é abrir a torneira do deboche e transbordar copos de escárnio. No entanto, as existências miseráveis devem ser aceitas também, afinal, elas externam o que contem.

Uma coisa questão importante a ser mencionada é o que se espera de um poeta. Encontrei uma poesia sensacional (O que se espera de um poesa, de Paulo Cezar dos Santos) que fala sobre isso, segue abaixo um trecho:

“(…) Sim, às vezes, o poeta passa por “bocó”,
porém, integro, que não ensaia sentimentos
teatrais.
Ninguém pode negar a autenticidade do
poeta sincero.
O olhar distante do poeta talvez esteja
em busca de um mundo mais justo.

A tristeza do seu olhar é de ver tanta
fome, miséria e violência.

O poeta sofre em testemunhar
esse jogo corrupto de
relacionamentos interesseiros,
fomentados por aqueles que,
aparentemente alegres,
porém, apenas uma casca frágil,
denunciada por seus olhares arredios.

A diferença é que o poeta tem coragem
de dizer que é humano.
Não, o poeta não é um alienado que
foge para um mundo particular.
O poeta acredita na realidade,
mas não nessa
caricatura que se mascara sol a sol. (…)”

Dentro de ótica, então posso me ver como um poeta. Sendo assim, posso continuar reverenciando a beleza em sua expressão escrita, alheio ao senso comum e aos copos cheios. Ousando um pouco mais, farei uso da metalinguagem da nossa existência não mais timidamente, para isso criei o Pense Sobre Poesia. Ele é blog irmão caçula do Pense Sobre, onde pretendo publicar palavras em ordem de beleza para nos olhos repousar.

Espero que gostem dele também.

É isso, até a próxima.

Anúncios

4 pensamentos sobre “Poesia: metalinguagem existencial?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s