pessoas “invisíveis”


motorista - publicado em gleydsonpe.blogspot.com
motorista – publicado em gleydsonpe.blogspot.com

Estamos no meio de dezembro, as lojas fervem aquecendo a economia. Nessa época o calor humano tende a aumentar, talvez por conta do espírito natalino. Mas toda essa comoção costuma ter prazo de validade e, normalmente, é desmontada no dia 6 de janeiro junto com a árvore de natal e o presépio.

Todavia, o assunto de hoje não é o natal, mas as pessoas que passam desapercebidas ao longo do ano – gente invisível (confira aqui a matéria). Pois é, invisibilidade não existe meramente na ficção, segundo o estudo feito por Fernando Braga.

Sua pesquisa começou em 1994 quando ainda era aluno do curso de psicologia da USP e fazia estágio de uma das disciplinas. Tal questão despertou o interesse de Braga de tal forma que virou tema de sua dissertação de mestrado, concluída em 2002. “Fiquei atordoado, não conseguia sentir o gosto da comida, perdi meu centro“, conta Fernando. Além disso, ele complementa dizendo que “a invisibilidade pública vem sempre na companhia da humilhação social, o sofrimento pelo rebaixamento político, social e psicológico experimentado continuamente por cidadãos de classes D e E.

A minha mãe é uma faxineira que está afastada do seu trabalho para tratamento de câncer de mama (mas em relação à doença, está tudo bem graças a Deus). Já o meu pai é um motorista de ônibus aposentado. Ao longo dos meus 28 anos, lembro de ter ouvido várias histórias que ratificam essa teoria da invisibilidade. Tanto que meu pai costumava dizer a seguinte frase quando lhe perguntavam qual era sua ocupação: “eu dirijo um cata corno, pra carregar aquele bando de fariseu”. Houve uma vez que ele, nordestino arretado, disse: “se eu encontrar um filho meu atrás de um volante de ônibus, batendo alavanca, eu mato!”  Todo esse apreço pelo seu trabalho, sem dúvida, é fruto de uma série de experiências desagradáveis.

Independentemente da classe social, são pessoas que estão ali fazendo seus papéis funcionais na sociedade. Sendo assim, gentileza é imprescindível, haja visto que elas tem sentimentos, sonhos, medos e alegrias.

Na última semana, no meu trabalho, uma auxiliar de serviços gerais perdeu sua mãe. Naturalmente ela ficou e ainda está abatida. O comportamento mínimo que se pode ter com ela é de solidariedade para lhe dar uma força, ouvir sobre sua dor e tentar reconfortá-la com um olhar,  um abraço e/ou uma palavra amiga.

Lembro que minha mãe ficava feliz da vida quando algum professor (ela trabalhava na limpeza do departamento de biologia da UFES) parava pra conversar e falar sobre questões acadêmicas que, pra ela, pareciam distantes mas que com o passar do tempo, ela começou a compreender alguma coisa. Ela cursou apenas o 1° grau, mas curtia estar naquele ambiente de ensino superior pois gostava de conversar com os “pobrezinhos” dos alunos que eram cobrados dos “carrascos” dos professores – segundo dizia.

Apesar de faxineira, ela construiu uma imagem de mãezona, conversando com aqueles alunos que passavam cabisbaixos pelo corredor após suas decepções acadêmicas ou, às vezes, sentimentais. Isso, dentre outros mimos que ela proporcionava aos que caiam em sua graça: deixar usar a cozinha do setor de limpeza pra que os que levavam comida, esquentarem suas marmitas e etc. Tudo isso foi bem legal pois, quando ela foi diagnosticada com câncer, houve uma certa comoção com seu afastamento e o carinho que ela recebeu foi muito importante na recuperação.

Se numa empresa, quando esbarramos com algum colega, cumprimentados, porque não fazer o mesmo com TODAS  as pessoas que trabalham lá, fazendo com que se sintam VISÍVEIS, percebidos. Ser gentil com qualquer pessoa faz um bem enorme pra alma. Entendo que duas coisas abrem portas nessa vida, maçanetas e sorrisos.

Pequenos gestos que fazem toda a diferença como oferecer algo pra beber ao carteiro e ao gari num dia de sol quente; cumprimentar o motorista e o cobrador no ônibus; sacanear o porteiro/segurança  perguntando se está triste porque seu time perdeu no final de semana são exemplos de pequenas coisas simples de serem feitas e que fazem a vida fluir entre nós.

Quando o sopro de vida deixar nossos corpos, nosso destino será comer capim pela raiz ou ser cremado. Somos todos um, então acredito que devamos agir como tal, independentemente de status social. Amar ao próximo pra mim é isso. Fazendo isso, conseguiremos estendemos o espírito natalino além do dia de reis.

É isso, pense sobre.

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3 pensamentos sobre “pessoas “invisíveis”

  1. Penso que o que faz a grande maioria das pessoas não “enxergarem” as outras é um ridículo sentimento de superioridade que domina mentes medíocres. O individualismo é tão presente nas pessoas que acaba tornando-as mal-educadas. Um simples “bom dia” já deixa alguém feliz, justamente por perceber que foi visto, notado. Além de tal cumprimento fazer parte da boa educação.

  2. Legal vc falar sobre os seus pais, sobre vc.
    Eu costumo enxergar as pessoas, a cozinheira da última empresa q trabalhei até me adotou.
    Mas assim como um bom dia nosso faz a diferença, um bom dia deles tbm faz. Criar hábitos.
    Se um dia eu não estiver bem, não enxergaria nem o papa na minha frente, e um bom dia dessas pessoas ajudaria.

    =*

  3. Mesmo que recebamos uma cara fechada depois de um bom dia pq se importar né? querendo ou não a pessoa vai gostar ^^. O que remete a nós também, pois antes mesmo de recebermos tal gentileza, devemos estar abertos pra ela.
    Respondendo a sorrisos com sorrisos! :)

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