rei do nada


Riot Act - Pearl Jam
Riot Act – Pearl Jam

Nota do autor: depois de um longo e generoso verão, cá estou de volta ao blog. Lamento pelo atraso na atualização, o qual ocorreu por conta da minha mudança de Vitória-ES para o Ponta Grossa-PR. Passei duas semanas viajando, revendo pessoas queridas e conhecendo lugares bonitos, daí não conseguir manter a frequência de atualização mas pude ver que os acessos ao site não caíram nesse interim, o que pode significar duas coisas: os textos estão sendo conhecidos por gente nova ou então estão sendo revisitados. Seja como for, fiquei feliz com isso. Agora, sem mais delongas, bora pro post:

“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? “
(Trecho da Bíblia, livro de Eclesiastes)

Durante minhas férias, notei três situações de estresse parecidas e como também já passei por isso, achei pertinente abordá-las aqui. Elas giram em torno de uma coisa: ambição.

De acordo com o dicionário, ambição pode ser: (1) Desejo intenso de obter riquezas, poder, fama etc; ou (2) Desejo, intenção de alcançar um objetivo. Entendo ambição como algo bom, todavia, meu entendimento pende para a segunda definição do Aulete, em função do amadurecimento que vem ocorrendo ao longo desses 28 anos. Todavia, durante alguns anos eu tive ambição da primeira definição e quando vi o preço a ser pago (sobre preço, clique aqui e leia um post já publicado), achei um tanto caro.

Sobre as situações que me fizeram pensar sobre isso, deixo claro que talvez minha percepção não contemple toda sua totalidade, entretanto, acredito serem válidas de se relatar.

1 – Casa Grande Senzala (ou Piratas do Caribe): conheço um homem que construiu uma casa bem grande ao longo de 33 anos, localizada no Jardim Comercial-Capão Redondo-São Paulo-SP (pra mim o erro começa aí). Já ouviu aquela expressão: tem uma cabeça de burro enterrada neste aqui? Então, lá seria um cemitério de burros. Repare que não é preconceito com a periferia, haja visto que morei 14 anos lá. Mas acho absurdo um lugar onde o sucesso alheio é visto com tanto desdém pelos demais. Uma atmosfera de olho grande impera de modo que permanecer num local assim me parece tolice. O tal homem, que também é meu pai, acha que não e construiu mais duas, casas em cima das garagens da dele,  para alugar e tentar fazer mais dinheiro. Segundo ele, não valeria a pena vender a propriedade pelo fato de não achar um comprador que pague o preço que ele considera justo. Ora, quanto vale paz de espírito? Quanto vale qualidade de vida? Quanto vale se sentir bem no lugar em que se mora? Noto demasiado apego dele por parte do dinheiro que foi empregado lá ao longo do tempo, o que implica num tipo de escravidão. Meu irmão o apelidou de Bootstrap, aquele pirata que com o passar dos anos vai se fundindo à parede do navio, como se fosse um coral.

2-Meu foco (fuck) é no dinheiro: homem de bem, quase 40 anos, esposa e dois filhos. Dois imóveis próprios e um terceiro acabando de ser pago, além de dois carros. É natural que no início da carreira, aos vinte e poucos anos, haja desejo de construir um patrimônio que possa representar segurança no futuro. Mas quando se aproxima a meia idade, manter esse vontade me parece um contra-senso. Sobretudo se ela trouxer consigo afastamento familiar. Ficar cinco e às vezes seis dias por semana longe de casa para  manter um padrão de vida elevado tem implicado em perder o dia-a-dia de sua casa. Daí o crescimento dos filhos se dá em segundo plano da vida, em primeiro, o trabalho. A própria intimidade do casal pode esmorecer nessa circunstância. Daí o foco vira um fuck you, pois ele poderá acabar se fudendo nessa brincadeira.

3-Devo ao banco: casal jovem, de 8 pra 9 anos juntos. Uma história bonita e romântica, se conheceram quando ainda eram “ralados”, nas palavras deles. Atualmente ambos ocupam cargos importantes no banco em que trabalham. O sucesso profissional veio junto com o amadurecimento da relação. Mas como acontece nas melhores famílias, também passaram por alguns altos e baixos, felizmente bem superados. As metas financeiras de pagar a casa e o carro foram alcançadas, mas a vontade de continuar crescendo na mesma velocidade que estão tem sido um fator de desconforto na relação, pois isso a deixa a moça estressada em função da rotina de seu cargo e também limita o tempo deles juntos, pelo fato de que em algumas semanas ela precisa ficar fora para visitar as agências do interior do estado. Desacelerar o crescimento econômico reduziria a receita econômica, em contra-partida aumentaria a receita afetiva, rendendo juros sobre juros sobre os os bons momentos que valorizaram a relação. Ouvi do rapaz a seguinte frase: tudo que eu tenho, eu devo ao banco. Devo ao banco. Pra ele, os bens conquistados eles devem ao banco, mas o amor não, vem de antes e não foi hipotecado em momento algum.

Construir um castelo e não haver ninguém para habitá-lo é perda de tempo. Comigo foi mais ou menos assim, quis muito em pouco tempo, sofri e fiz pessoas sofrerem pela minha ambição. Tentei abraçar o mundo com as pernas e me vi um rei do nada. Reuni algumas posses mas não havia ninguém pra aproveitá-las comigo. Hoje concordo com a conclusão tardia de Chris Mccandless: “felicidade só é real quando é compartilhada“. Se a ambição fizer com que a felicidade não seja compartilhada, acredito que não valia a pena. Por fim, há uma canção do Metallica chamada King Nothing que fala um pouco sobre isso. Abaixo segue o clip e a letra.

É isso, pense sobre sua ambição.

Rei de Nada

“Gostaria de poder
Gostaria de ter podido
Ter este desejo hoje de noite
Você está satisfeito?

Procura a riqueza
Procura a fama
Procura fazer seu nome
Você está domado?

Todos os desejos que você jogou fora
Todas as coisas que perseguiu

E tudo se estraçalha
E você quebra sua coroa
E você aponta seu dedo
Mas não há ninguém por perto

Só quer uma coisa
Fazer o papel do rei
Mas o castelo desmorona
E você é deixado apenas com um nome

Onde está sua coroa rei de nada?

Duro e frio
Comprado e vendido
Um coração rígido como ouro
Você está satisfeito?

Gostaria de poder
Gostaria de ter podido
Você desejou desperdiçar sua vida
Você está domado?

Eu quero a estrela
Quero agora
Eu quero tudo e não importa como

Cuidado com o que almeja
Cuidado com o que diz
Cuidado com o que almeja
Talvez lamente-se

Cuidado com o que almeja
Você apenas pode conseguir”

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4 pensamentos sobre “rei do nada

  1. Amigo,

    Adorei o texto!Totalmente inspirador.

    Nossa maior ambição deve ser: fazer o bem, cultivar a família e os bons amigos e ser feliz.
    Bens materiais são apenas consequencias do nosso trabalho.
    Saudades de vc!

    Abraços

  2. Ótimo texto! Tenho percebido cada vez mais o quanto é importante pra mim impactar positivamente na vida das pessoas. E o quanto isso me faz feliz! As pessoas tem que ser o fim, e não o meio! Tolerância e resiliência =]

    Abraço

  3. Pingback: reinvenção (sem teto, Edredon, luz humana) « Pense Sobre

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