Engenharia de obra pronta


Anton - Crítico gastronomico do filme Ratatouille

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Ontem li uma comparação (veja aqui)  entre os livros de J. R. R. Tolkien e de George R.R. Martin que me fez pensar em quão tolos somos ao querer traçar paralelos entre as coisas. Ora, algo não pode ser simplesmente bom e pronto? A pessoa que escreveu o texto listou 10 razões pelas quais ‘A Guerra dos Tronos’ é (muito) melhor do que ‘O Senhor dos Anéis’ (sic).  Eu concordo que a série do Martin é excelente, mas avacalhar o Tolkien já é demais.

A infantilidade de O Hobbit nos possibilitou flertar com um mundo rico em detalhes, cuja fantasia era caracterizada pela sua sutileza. Além disso, a narrativa possui vários pontos altos, principalmente por conta do desfecho que suplanta a trama principal. Em o Senhor dos Anéis, livro escrito ao longo de 12 anos, Tolkien desdobra a Térra Média ao dar vida à mitologia (Silmarilion) que ele rascunhava antes mesmo da primeira aventura de Bilbo com os 13 anões em sua primeiro obra. Outra questão importante a ser frisada é que a criação disso tudo se deu na primeira metade do século passado, num período complicado para o mundo pela iminência da guerra e, posteriormente, por sua manifestação. Logo, é natural que as manifestações artísticas daquele período carregassem subjetivamente alguma pureza, embutindo mensagens de paz e esperança confortando o as pessoas acerca da “luta do bem contra o mal”.

De lá pra cá o mundo se transformou absurdamente em inúmeros aspectos: políticos, sociais, econômicos, geofísicos e etc. Desse modo, a cultura seguiu essa mudança e modernizou seus conceitos. Todavia, obras clássicas tendem a se firmar com o tempo. O primeiro volume da Guerra dos Tronos foi publicado em 1996. Um livro de fantasia mas com um contexto diferente por trazer trazer uma série de aspéctos políticos que, de certo modo, refletem a realidade dos nossos dias. Diferentemente dos livros de Tolkien que eram anacrônicos, a obra discute valores, interesses, vícios e as demais questões da vida adulta, haja visto que era declaradamente para o público adulto.

Portanto, entendo as semelhanças entre Tolkien e Martin se restringem às abreviações em seus sobrenomes e também pelo fatos de ambos serem escritores de fantasia. Comparar uma obra com a outra isoladamente de todos seu contexto no tempo é uma estupidez sem tamanho. Entendo que nossa percepção funciona melhor quando fazemos comparações. Talvez sejamos movidos a paradoxos, o que justifica a máxima religiosa pagã: “recebemos o inferno para que reconheçamos o paraíso”.  Entretanto, acho razoável e justo confrontar certas coisas com elas mesmas no tempo, assim é possível avaliar sua evolução.

Esse papo todo me fez lembrar dos engenheiros de obra pronta, aquelas criaturas se alimentam de críticas sumárias. Com suas línguas e canetas (ou impressoras) sempre a postos para tecer comentários vazios e impertinentes ou até mesmo pertinentes mas de maneiras inadequadas. Sua razão de existir se baseia em fazer parte do problema e não da solução, vigorosamente incapazes de arregaçar as mangas para ajudar a criar mas profícuos em julgar negativamente o que foi feito. Como o exercício da engenharia de obra pronta não exige registro no CREA, é bem fácil de encontrar o desserviço desses “profissionais” próximo a nós: situados não raramente na baia da frente no trabalho, na carteira lateral da sala de aula, em meio aos contatos do Msn ou mesmo devidamente acomodado no sofá da sala. Mas se o CREA não reconhece, muito menos eu.

É isso, pense sobre críticos, engenheiros de obra pronta e comparações adequadas.

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3 pensamentos sobre “Engenharia de obra pronta

  1. Não li a “Guerra dos Tronos”, logo não posso dizer se é melhor (ou pior) que “Senhor dos Aneis”.

    Mas Tolkien, indiscutivelmente, criou uma obra-prima. É um referência desde sempre da cultura pop, de RPG a Dream Theater. Com a dificuldade, como lembrado no post, da época -não só o perigo iminente da guerra como as próprias limitações de pesquisa, fontes etc (que nos tempos de internet não existem mais).

    E outra coisa, realmente é inapropriado comparar obras diversas. Van Gogh é pior ou melhor que Gauguin? Gosto é gosto.

    • Pelo que tenho visto no seriado da HBO do ouvi de quem está lendo A Guerra dos Tronos, entendo que vale a pena ler sim. Mas é como você disse, querer traçar paralelos com outras obras para dizer se é melhor ou pior é bobagem.

  2. Pingback: O Aleph « Pense Sobre

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