Liberdade

Instintivamente, há cachorros que correm alucinadamente atrás de veículos em movimento. Quando o veículo estaciona, eles se restringem a latir pois é o máximo que conseguem fazer naquela situação. Desfrutar da liberdade é uma necessidade básica dos seres humanos. Porém, a liberdade é restrita a nós mesmos. Numa interpretação hinduísta, ignorantemente falando, nosso ser é limitado pelo nosso corpo mortal. Por isso que a maior parte de nós só atinge o brahma quando vai ao bar.

Além disso, somos limitados pela nossa formação/criação e experiência de vida que restringem nossos pensamentos a um microuniverso. Nele temos total liberdade, no entanto, suas fronteiras são vigorosamente vigiadas. Todo e qualquer ideia subversiva ao que for considerado normal será fiscalizada e inquirida exaustivamente, isto se o fiscal do turno agir conforme o protocolo. Do contrário, ela simplesmente terá seu ingresso negado.

Outro fator restritivo da liberdade, enquanto pertencentes a uma economia de livre mercado, é justamente o vil metal. Afinal, de que adianta ser livre e não ter condições de fazer as coisas. Por mais que tenhamos, o ímpeto de liberdade fará com que desejemos o que é inalcançável. Mas é justo que seja assim, afinal é o nos faz avançar e mantem as engrenagens da vida rodando.

Se liberdade fosse um instrumento, pouquíssimas pessoas conseguiriam entoar todas as suas notas, o que eu duvido que seja possível. Isso porque a vida é preenchida em sua maior parte pela rotina. Entre outras coisas, o desfrute da liberdade permite a fuga do lugar comum. Entretanto, vivendo condicionado a algo, bom ou ruim, sua ausência inexoravelmente será sentida. Assim, é natural que talvez surja uma sensação de culpa quando você estiver gozando de sua liberdade, fazendo coisas socialmente aceitas ou não.

A própria aceitação social é outro fator limitador da liberdade. Novamente a polícia mental age em prol do mantenimento da ordem. Se uma coisa não é socialmente aceita, pertence ao caos. Como o conceito de caos e criação não habita amplamente o pensamento ocidental, a emblemática imagem do caos como algo ruim permanece no inconsciente coletivo, subsidiando o mantenimento da mesmice.

O ideal de liberdade já levou inúmeras pessoas a antecipar compulsoriamente sua saída da vida, como por exemplo o Willian Walace. Mesmo assim, continuamos a persegui-lo incansavelmente, latindo e correndo. Contudo, quando o alcançamos, tal qual o cachorro do início, não sabemos bem o que fazer, então latimos.

Pense sobre.

valores

Arte Rupestre - Pré-História (Cena de caçada primitiva)

Arte Rupestre – Pré-História (Cena de caçada primitiva)

Talvez este seja o maior texto publicado no blog até hoje. Dividi em partes pra tentar organizar as ideias.

Parte I – Panorama

O calendário marca 2012 anos da Era Comum. Se a expectativa de vida nesse período fosse de 50 anos, teriam se passado aproximadamente 40 gerações. E o que mudou de lá pra cá? Muita coisa, por exemplo, aumentou o conhecimento sobre o universo, sobre o planeta, sobre os animais e sobre o próprio ser humano. A tecnologia evoluiu, os meios de produção foram incrementados, o que implicou na possibilidade de produzir muito mais com muito menos.

As organizações sociais também se desenvolveram, assincronamente, em função da particularidade da cultura de cada povo. No entanto, para certas questões, tudo continua tão arcaico. Se o sistema monetário permite resolver, por que ainda há tanta desigualdade econômica? Se os saberes estão dispostos, por que ainda há tanta ignorância? Se é sabido o que fazer e como fazer, por que não se faz?

Uma possibilidade, simplória, é a conveniência da manutenção dos que há, afinal, o poder tende a se aglutinar em vez de se dividir. Condições de promover realidades menos miseráveis existem, mas a ganância e falta de vontade caminham de mãos dadas, sem olhar para os lados. Paralelo a isso, as oportunidades de mudar a própria realidade são descartadas uma a uma, ou pela falta de esperança em si próprio ou pelo excesso de esperança em algo utópico que não vai se concretizar.

Parte II – Ainda predonimantemente ignorantes

De um modo geral, tudo evoluiu com enormemente, exceto nossos valores. Somos tão selvagens quanto sempre fomos. Como é possível que ainda ocorram casos de agressão, física e verbal, nos dias de hoje? E por motivos tão estúpidos como: discordância sexual, religiosa, time de futebol, trânsito, e tantos outros.

Nos últimos séculos, muito conhecimento foi gerado. As últimas décadas foram marcadas pela facilitação do acesso à informação. Contudo, poucos resultados práticos podem ser constatados. Então eis o paradoxo: há tanta informação disponível sobre tudo mas, de um modo geral, é incutido o mínimo de nada.

Dentro disso, a educação se mostra como redentora das trevas da nossa ignorância. Porém, muitos daqueles que tem acesso e oportunidade abrem mão em prol do menor esforço. De outro lado, há os esclarecidos que fecham os olhos para a realidade. Não há um fator de convergência que promova uma ascensão da consciência coletiva.

Há quem defenda que o sucesso do capitalismo se deva ao fato dele representar tão bem a natureza humana e sua tendência à competição: quem ganha mais?;  quem tem mais?; quem (complete com as palavras que puder imaginar aqui) mais e mais e mais e mais.

Parte III – A nave

Estamos numa nave que viaja pelo vácuo, em torno da estrela central do “nosso” sistema planetário, a uma velocidade constante e presa por forças invisíveis. Nela, diversos grupos buscam alcançar a direção. Quanta tolice querer dirigir algo que está num “trilho” e que descreve movimento é elíptico, isto é, vai voltar sempre para onde saiu.

Não seria melhor tentar tornar a viagem mais agradável? Se vou fazer um percurso de 2h de ônibus e estou sentado, não deveria me sensibilizar com quem está em pé? Se de tudo eu não quiser ceder meu lugar para um deles por pelo menos metade do caminho, não seria gentil segurar sua bolsa?

Mas a realidade é muito diferente, pois o que costuma acontecer é a pessoa necessitar de apenas um lugar, haja visto que possui apenas uma bunda, mas ocupar 8 ou 9 lugares, os quais ficarão ociosos, e ainda ficar à espreita para pegar os lugares que forem ficando vagos ao longo do trajeto. Para o restante dos passageiros resta desafiar as leis da física e tentar ocupar o mesmo lugar no espaço.

Parte IV – A triste raiva travestida de pena

Detesto ver a calçada da frente de casa suja pela lixeira ter sido revirada por pessoas que abriram mão da dignidade em razão de seus vícios. Mas minha raiva se traveste de pena por saber que elas são tão fracas psicologicamente a ponto de serem incapazes de saírem sozinhas de um estado tão vexaminoso. Este é o motivo pelo qual não me uno aos olhares indiferentes que os perscrutam enquanto fazem seu “supermercado de restos” e se negam ao mínimo da cordialidade devida a qualquer ser humano.

Engraçado que esta pena, oriunda da raiva, é a mesma que me comove com os religiosos. Pessoas que acreditam que um ser supremo irá de deslocar do infinito para tratar das suas questões tão pífias perante o todo. Voltando à analogia da nave, eu nunca vi o maquinista tentar organizar a disposição das pessoas no vagão do trem. Cabe a cada uma delas atentar para seu destino e, ao longo da viagem, buscar condições melhores como um lugar pra se sentar, a brisa da abertura do teto, evitar o aperto entre os corpos e etc.

Mas não me cabe julgar o que cada um pensa e acredita, no entanto, qualquer verdade absoluta representa um perigo para o convívio social. Nisto reside minha preocupação e minha queixa.

Parte final – Tantos por quês.

Por que nossos valores não evoluem com a mesma velocidade que todo o restante? Por que subsistem preconceitos contra cor, sexo, orientação sexual, estilo de vida e tantas outras coisas? Por que há tanta falta de vontade por todo lado? Por que simplesmente não se cuida da própria vida e faz-se o mínimo pela vida dos que estão em volta? Por que ter mais é tão importante? Enfim, por que não se pensa no porquê das coisas? Somente questionando é possível avaliar o que há pra ser avaliado. E a partir disso, se reposicionar diante das questões e dos fatos.

Pense sobre, vivo e inquieto.

estigma

O dicionário Aulete classifica a palavra estigma da seguinte forma:

1. Fig. Visão negativa e muito arraigada, numa sociedade, a respeito de determinada prática, comportamento, doença etc.
2. Fig. Qualquer marca ou característica considerada negativa, desonrosa.
3. Marca deixada por ferida, doença etc.
4. Marca, sinal no corpo.
5. Marca infamante feita com ferro em brasa, que antigamente se aplicava nos ombros ou braços dos ladrões, assassinos ou escravos.
6. Marca semelhante à das chagas de Cristo, tal como aparecem no corpo de alguns santos.

Uma tattoo pode ser considerada um estigma pois ainda há quem veja tal prática como negativa devido à sua antiga associação com a marginalidade. Felizmente a sociedade está em constante transformação e o número de pessoas que tem esse preconceito é cada vez menor. Afinal, como um desenho na pele pode determinar a índole de um indivíduo? Seu caráter, seu código moral e ético?

Irremediavelmente cada um de nós vai sendo marcado ao longo da vida. Algumas marcas são intencionais como é o caso da tatuagem, outras não, são incidentais. Tais sinais podem ficar expostos ou ocultos, mas estão todas lá, em nós. No entanto, me parece que os estigmas não são apenas físicos. Eles podem ser também sociais, psicológicos e emocionais.

Um ex-presidiário é uma pessoa estigmatizada socialmente. Ela encontra várias barreira ao longo do seu processo de reinserção social. Pelo fato de ter cometido algum crime, as pessoas ao seu redor, provavelmente, terão dificuldade em depositar sua confiança, mesmo que ele já tenha cumprido sua pena perante a justiça. É uma marca a ser carregada até o fim dos seus dias.

Estigmas criados por nós mesmos ou pelas pessoas ao nosso redor, normalmente nossos pais, também são marcas difíceis de serem ignoradas. Ficam psicologicamente arraigadas. Do trato à estigmatização ocorre um processo em que uma determinada imagem é vendida, cabendo a nós compra-la ou não. A criança que passa sua infância e adolescência sendo tratada como burra, pode acabar criando um bloqueio em si mesma, levando a uma vida adulta limitada por acreditar que não é capaz de ir além das suas possibilidades. Ela foi marcada como tal. Igualmente com os estigmas de egoísta, preguiçoso, encrenqueiro e etc. Assim, percebe-se desse contexto que é, erroneamente, mais importante rotular o indivíduo do que buscar as causas do problema e suas possíveis soluções. Onde há muita cobrança, há pouco espaço para o amor.

Uma pessoa divorciada é quase um ex-presidiário emocional. Além de aprender a conviver com sua própria culpa, ela precisa lidar com elementos recorrentes que surgem para lembrá-lo de sua mácula. Da separação até uma nova união, há uma via-crucis a ser percorrida. O nível de exposição das marcas determina o grau de dificuldade de reinserção emocional a ser enfrentado. Isto é, quanto mais for sabido acerca do que houve, maior será a desconfiança em relação ex-detento matrimonial. Por melhores que sejam as intenções, o estigma estará lá para lembra ao casal que há apenas um é imaculado ali.  A banda The National tem uma canção chamada Cardinal Song que sugere algumas coisas pra esse tipo de situação. Veja no final do post.

Disso tudo, ficam os estigmas. Do momento em que começamos a respirar até aquele em que paramos, seremos marcados. Por nós mesmos e/ou pelos outros. Expostos ou ocultos, intencionalmente ou não. Tudo dependerá do que nós e os outros iremos pensar a respeito. Bem como, da maneira como iremos nos portar diante de tal fato.

Cardinal Song

Nunca a olhe nos olhos
Nunca diga a verdade
Se ela sabe que você é papel
Você sabe que ela terá que queimá-lo

Nunca diga àquela que você deseja que você o faz
Guarde isso para o leito de morte
Quando você sabe que manteve ela desejando você

E faça tudo que ela nunca faria

Durma com esposas de estranhos
As esposas selvagens de homens desconhecidos
Bom para você, você acabou de se tornar
Apenas mais um deles

Nunca diga que sente falta dela
Nunca diga uma palavra

E faça tudo que ela nunca faria

Não deixe ela ver seus olhos vermelhos
Não deixe ela ver seus olhos vermelhos

Deixe-a tratá-lo como um criminoso
Para então você tratá-la como uma madre
Meninas, perdoem minha mente humana
Meninas, perdoem-me mais uma vez

Nunca diga àquela que você ama que você o faz
Guarde isso para o leito de morte

E faça tudo que ela nunca faria

Não deixe ela ver seus olhos vermelhos
Não deixe ela ver seus olhos vermelhos

Jesus Cristo, você tem me confundido
Encurralou-me, gastou-me, abençoou-me e usou-me
Perdoem-me, meninas, eu estou confuso
Rígido e puto e perdido e largado

Vazio

vazio - (imagem retirada de binoculosdecego.blogspot.com)

vazio - (imagem retirada de binoculosdecego.blogspot.com)

Tanto tempo sem escrever aqui e o maior motivo era este: nada pra falar. Como ouvi certa vez: levamos cerca de dois anos para aprender a falar e o restante da vida para aprender a ficar calado. De certo modo, me peguei assim, vazio. Um vazio gerado pelo fato de ter ficado cheio.

Mudança de rotina de trabalho, de cidade, entre outras coisas, ocupou minha mente e esvaziou minhas idéias. Então resolvi ser egoísta e guardar meus pensamentos. Já haviam coisas demais publicadas no blog para se pensar sobre. No entanto, o vazio acabou me enchendo também, a ponto de ter que voltar a escrever. Tantos vazios que nem sei por qual começar:

  • a política que se repete num teatro infindável de interesses, velhos nomes se mantendo à margem da mídia para não chamar a atenção. Um escândalos atrás do outro, implicando em substituições e expectativas de melhoras que dificilmente serão atingidas. Me pergunto se algum dia isso foi diferente, mas tenho ficado cada vez mais instigado a não saber do que está acontecendo, pois a maior parte das notícias não são boas. Certo estava o Raul: “eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz, não quero ir de encontro ao azar”.
  • a sociedade lutando por valores duvidosos, recheada de interesses escusos. Nunca sei quando a subserviência bovina do povo está em prol de algo verdadeiro ou sendo mais uma vez usada como massa de manobra. Todavia, a parte mineira do meu sangue me faz desconfiar de tudo sempre.
  • sobre a religião, acho que nem comento mais pois vejo os dois pontos anteriores tão arraigados nela que desanimo. To mais inclinado pra teoria do personagem Syrio de A guerra dos Tronos: “existe apenas um deus e se chama morte. Temos apenas uma coisa a dizer pra morte: hoje não”.

Poderia citar outros, mas é sabido que vazio não preenche espaço. Assim, me parece mais útil falar de coisas que preenchem de fato: amar e ser amado, trabalhar com o que se gosta, lutar pelo que se acredita, estar com quem gostamos. Coisas simples, piegas e, inegavelmente, verdadeiras. Tal conjunto árduo de se reunir mas que motiva abrir os olhos cedo, saltar da cama e aproveitar cada momento do dia, sejam ele bom ou ruim, afinal, “não há o que lamentar, quando chega o fim do dia” (Arnaldo Antunes, canção Fim do Dia).

Antes de encerrar, cabe recomendar a música abaixo que eu atentei apenas nesse ano. Ela aborda um certo vazio existencial de uma maneira que soa atemporal. Conheço um punhado de gente que nos dias de hoje se encaixaria perfeitamente nestes versos.

É isso, pense sobre e até a próxima.

Ouro de Tolo – Raul Seixas

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês…

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73…

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa…

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa…

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado…

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto “e daí?”
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado…

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos…

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco…

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal…

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social…

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar…

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador…

O Aleph

O Aleph - Paulo Coelho

O Aleph - Paulo Coelho

Quantas chances deixamos passar ao longo da vida? Algumas profissionais, outras pessoais ou mesmo a oportunidade de ficar calado. Normalmente isso está atrelado à falta de informação.  Agimos sumariamente com base no conhecimento que temos e com isso perdemos a possibilidade de expandir nossas fronteiras.

Conforme  falei no post anterior (veja aqui), existem aqueles que preferem criticar por esporte. Vejo isso a respeito do Paulo Coelho. Dos escritores brasileiros em atividade, ele é indiscutivelmente um fenômeno. Possui uma obra de mais de 15 livros publicados e já vendeu quantidades exorbitantes no mundo todo. Além disso, teve participação marcante na música brasileira, compondo com Raul Seixas dezenas de músicas, emplacando vários sucessos como: Eu nasci a dez mil anos atrás; Tente outra vez; Al Capone; Medo da chuva e Sociedade alternativa.

Amado por muitos e desmerecido por tantos outros, os quais fiz parte por um bom tempo. Na adolescencia, quando começava a tentar desenvolver o gosto pela leitura, encontrava sérias dificuldades com as recomendações literárias dos professores: Meu pé de laranja lima, Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão Veredas e etc. Eram temas que não faziam parte do meu cotidiano e não acrescentavam em nada a minha vida, não naquele momento. Buscando alternativas, encontrei dois livros do Paulo Coelho que pareciam ser mais bacanas: O Diário de um Mago, pois narrava uma aventura pelo caminho de Santiago da Compostela; e Brida que falava sobre bruxas. Ou seja, muito mais interessante quando se é adolescente. Por isso não recrimino quem lê Harry Potter e Crepúsculo, apesar de preferir Tolkien e Anne Rice, acho válidas as tentativas de ampliação do saber. Além disso, a leitura, independentemente do tipo, ajuda a desenvolver o senso crítico. Entretanto, parei de ler por conta do ranço alheio que incorporei, em especial o que foi disseminado por professores de literatura. Os quais inclusive classificavam a obra de Coelho como “Enganatura”. Ora, se ele escreve fantasia ou realidade, não importa, é arte. É muito fácil criticar a obra pronta, mas pavimentar um caminho como o dele não. Outro erro é querer compará-lo a escritores de outros estilos e tempos, ainda que brasileiros. Incorre na mesma tolice que relatei no último texto, de se comparar Tolkien com Martin.

Perdi o preconceito pelo Paulo, após ouvir uma entrevista sua no Nerdcast (ouça aqui). Lá percebi um cara sincero, que explicita sua verdade pela escrita, ainda que muitos a tomem por ilusão. Alguém que teve coragem de lutar pelo que acreditava, pagando o preço de mudar sua vida radicalmente. Foi assim que, segundo ele, deixou a carreira em gravadoras em busca de se tornar escritor.

Seu último livro, O Alph, não é a oitava maravilha do mundo, mas possui uma série de pensamentos que poderiam facilmente ser incorporada ao Tao Te King ou qualquer outra obra de aconselhamento pessoal para uma vida perfeita.  Destaco abaixo alguns que me saltaram aos olhos:

  • “É a dúvida que move o homem adiante.”
  • “Não se mede o tempo como se calcula a distância entre dois pontos.
  • “Passado e futuro existem apenas na nossa memória.”
  • “Não traia as graças que lhe foram concedidas.”
  • “Quando a insatisfação não desaparece, ela foi colocada ali […] com uma única razão: é preciso mudar tudo e caminhar adiante.”
  • “Quando estamos diante de uma perda, não adianta tentar recuperar o que já se foi, é melhor aproveitar o grande espaço aberto e preenchê-lo com algo melhor.”
  • “[…] quem está realmente comprometido com a vida jamais para de caminhar.”
  • “[…] uma vida sem causa é uma vida sem efeito.”

Ler O Aleph também me inspirou a escrever certas coisas como o post Espiritualidade (leia aqui) e também algumas poesias (leia aqui).

Portanto, meu preconceito me fez ficar parado. Tenho outros ainda que precisam ser trabalhados, em diversas áreas. O que me tranquiliza é a consciência de possuí-los e a vontade de querer superá-los.

É isso, pense sobre.

Engenharia de obra pronta

Anton - Crítico gastronomico do filme Ratatouille

Anton - Crítico gastronomico do filme Ratatouille

Ontem li uma comparação (veja aqui)  entre os livros de J. R. R. Tolkien e de George R.R. Martin que me fez pensar em quão tolos somos ao querer traçar paralelos entre as coisas. Ora, algo não pode ser simplesmente bom e pronto? A pessoa que escreveu o texto listou 10 razões pelas quais ‘A Guerra dos Tronos’ é (muito) melhor do que ‘O Senhor dos Anéis’ (sic).  Eu concordo que a série do Martin é excelente, mas avacalhar o Tolkien já é demais.

A infantilidade de O Hobbit nos possibilitou flertar com um mundo rico em detalhes, cuja fantasia era caracterizada pela sua sutileza. Além disso, a narrativa possui vários pontos altos, principalmente por conta do desfecho que suplanta a trama principal. Em o Senhor dos Anéis, livro escrito ao longo de 12 anos, Tolkien desdobra a Térra Média ao dar vida à mitologia (Silmarilion) que ele rascunhava antes mesmo da primeira aventura de Bilbo com os 13 anões em sua primeiro obra. Outra questão importante a ser frisada é que a criação disso tudo se deu na primeira metade do século passado, num período complicado para o mundo pela iminência da guerra e, posteriormente, por sua manifestação. Logo, é natural que as manifestações artísticas daquele período carregassem subjetivamente alguma pureza, embutindo mensagens de paz e esperança confortando o as pessoas acerca da “luta do bem contra o mal”.

De lá pra cá o mundo se transformou absurdamente em inúmeros aspectos: políticos, sociais, econômicos, geofísicos e etc. Desse modo, a cultura seguiu essa mudança e modernizou seus conceitos. Todavia, obras clássicas tendem a se firmar com o tempo. O primeiro volume da Guerra dos Tronos foi publicado em 1996. Um livro de fantasia mas com um contexto diferente por trazer trazer uma série de aspéctos políticos que, de certo modo, refletem a realidade dos nossos dias. Diferentemente dos livros de Tolkien que eram anacrônicos, a obra discute valores, interesses, vícios e as demais questões da vida adulta, haja visto que era declaradamente para o público adulto.

Portanto, entendo as semelhanças entre Tolkien e Martin se restringem às abreviações em seus sobrenomes e também pelo fatos de ambos serem escritores de fantasia. Comparar uma obra com a outra isoladamente de todos seu contexto no tempo é uma estupidez sem tamanho. Entendo que nossa percepção funciona melhor quando fazemos comparações. Talvez sejamos movidos a paradoxos, o que justifica a máxima religiosa pagã: “recebemos o inferno para que reconheçamos o paraíso”.  Entretanto, acho razoável e justo confrontar certas coisas com elas mesmas no tempo, assim é possível avaliar sua evolução.

Esse papo todo me fez lembrar dos engenheiros de obra pronta, aquelas criaturas se alimentam de críticas sumárias. Com suas línguas e canetas (ou impressoras) sempre a postos para tecer comentários vazios e impertinentes ou até mesmo pertinentes mas de maneiras inadequadas. Sua razão de existir se baseia em fazer parte do problema e não da solução, vigorosamente incapazes de arregaçar as mangas para ajudar a criar mas profícuos em julgar negativamente o que foi feito. Como o exercício da engenharia de obra pronta não exige registro no CREA, é bem fácil de encontrar o desserviço desses “profissionais” próximo a nós: situados não raramente na baia da frente no trabalho, na carteira lateral da sala de aula, em meio aos contatos do Msn ou mesmo devidamente acomodado no sofá da sala. Mas se o CREA não reconhece, muito menos eu.

É isso, pense sobre críticos, engenheiros de obra pronta e comparações adequadas.

Muro digital das lamentações

Muro (digital) das lamentações

Muro (digital) das lamentações

Pensava no twitter como um lugar pra compartilhar coisas e idéias, mas como elas afundam naquele mar de banalidades é melhor preserva-las aqui. Entendo que por ser uma mídia social, é natural seu emprego na socialização, onde as pessoas se expressam fazendo uso, ou não, do anonimato. Porém, ultimamente percebo um volume excessivo disso, o que torna a coisa toda bastante pedante. Chega a parecer a versão digital do Muro das Lamentações, onde os religiosos depositam seus pedidos/lamúrias nas fendas da parede.

No caso do twitter, quem sabe tenha sido sempre assim e eu que nunca prestei atenção. Ou então, ele tenha atingido seu ápice e agora iniciou o processo natural saturação. Desse modo, é possível que essa mídia comece a descer a ladeira, para dar vez a uma nova forma de interação. Seja como for, se houvesse uma consciência coletiva um pouco mais apurada, talvez fosse possível prover uma sobrevida a esse fenômeno digital.

Mas como nada é tão ruim que não possa piorar, fazendo coro ao twitter segue o facebook com aqueles aplicativos desprezíveis que fazem a cabeça da galera. Eu sinto palpitações quando aparece no meu mural algo do tipo “sabedoria do É o Tcham”; “Como você está hoje?”;  “O que devo fazer hoje?”; “Eu confesso que preciso” e etc. Colocar “sabedoria” e “É o tcham” na mesma frase sem usar a palavra “ausência” ou algum similar é uma incoerência absurda. Quanto às demais perguntas, vou esclarecer apenas um detalhe: a resposta da pergunta é proveniente de um programa! Isto é, a pessoa vai aceitar a afirmação gerada por um algoritmo com base em absolutamente nada, pois é bem provável que sua lógica seja randômica.

A solução pra isso é: consiga uma vida (apt-get a life!) e decida você o que fazer, descubra em si mesmo o que precisa e desenvolva sua sabedoria – sozinho ou a partir de fontes de conhecimento confiáveis.

O orkut começou seu declínio em função daquela bobajada toda que se alastrou pelos scrap books, tornando-os crap books. O facebook é uma plataforma mais avançada que permite uma série de coisas interessantes, então me parece medíocre restringir seu uso a ficar dizendo que está bem, que fez isso ou aquilo, que não está triste? Toda vez que leio algo assim penso justamente o contrário e fico puto porque autocomiseração é uma coisa repugnante. Não consigo entender esse prazer em despertar pena alheia. Ora, se a pessoa está na minha listagem de amigos(as) é porque nutro alguma consideração por ela, daí ficar vendo ela sentir dó de si mesma e querendo chamar atenção dos demais pra poder se sentir especial é deprimente.

Um ponto importante para se frisar aqui: você não é especial, eu não sou especial e ninguém é especial intrinsecamente. Assumimos alguma importância para nós mesmos ou para outra(s) pessoa(s) em determinados momentos da vida. Entretanto, como já discuti aqui no blog antes, os momentos são efêmeros, daí precisamos criar mais momentos admiráveis e isso demanda energia, entusiasmo, coisas essas que misericórdia ofusca.

Outra coisa infeliz são os perfis falsos. É literalmente gozar com o pau alheio, difundido idéias forjadas na popularidade de pessoas famosas. Isto demonstra uma presença de espírito muito pequena ou nula, pois descarta a luta pela conquista de credibilidade e de influência por méritos próprios. Paralelamente temos os perfis anônimos que se valem do desconhecimento para expressar opiniões torpes. Mas volto naquela velha premissa, se existe oferta disso é porque há demanda. Dessa forma, o combate é pelo desprezo. Se o consumo for inexpressivo, a pessoa tende a desistir da idéia.

Portanto, pense sobre o uso que você tem feito das mídias sociais e se está cooperando pra redução de sua longevidade.

Extras:

Matéria: Pesquisa aponta que menos de 30% de usuários do Twitter são verdadeiros (via @rodrigonasdacon)

Poema: Bits à esquerda (Pense Sobre Poesia)