a vida até parece uma festa (mas quanto custa?)

Registro de Consumação

Registro de Consumação

Desde 1997, quando ouvi Diversão pela primeira vez, fiquei pensando que era uma música de incitação ao prazer, à diversão propriamente dita, afinal, a letra é bastante clara nesse sentido.  Entretanto, de uns tempos pra cá, caiu a ficha pra mim que diversão tem um preço. Então lembrei de uma outra banda de rock, chamada Viper, que diz algo relacionado a isso em uma de suas músicas.

DiversãoTitãs

“A vida até parece uma festa
Em certas horas isso é o que nos resta
Não se esquece o preço que ela cobra
(é meu irmão se a gente não quer!?)
Em certas horas isso é o que nos sobra.”

8 de abril Viper

“A realidade veio me avisar
Tudo tem seu preço
Ela vai me cobrar”

Pensar que tudo na vida tem um preço é bastante razoável. Isso ajuda a explicar o porque de muitas coisas. Como disse num post anterior, a lei universal do equilíbrio diz que se alguém está se dando muito bem, necessariamente deve haver alguém se fudendo. A importância desse assunto está justamente o fato de saber o que se pretende viver/consumir, para que a conta, no final das contas, não seja mais alta do que se está disposto a pagar. Na infância, escolher obedecer os pais, nos torna mais sociável para a vida adulta. Na adolescência, escolher estudar em vez de ficar a toa emburrado no quarto – pra tentar entender o que não tem explicação –  ajuda no vestibular e também na vida adulta, afinal, de quando em quando, as informações teóricas absorvidas ao longo da vida se mostram úteis na prática ( química na cozinha ou na lavanderia; física ao fazer mudanças ou pequenas atividades como furar uma parede para botar um armário na parede; história e geografia pra aquelas conversas de boteco animadas; português para redação administrativa ou interpretação de um artigo e etc). Na vida adulta, a lógica é a mesma.

O grande desafio disso tudo é saber exatamente o preço de cada coisa. Algumas custam caro (em termos de tempo, dinheiro e esforço)  e proporcionam um retorno grandioso, como o caso da graduação. Outras custam caro e não levam a lugar algum (certamente você deva ter algo que lhe deu um puta trabalho e não compensou, como eu tenho mas que nem vale a pena falar). Existem ainda as que não custam caro mas geram um retorno interessante (como investir na amizade, em tempo com os amigos de verdade, não deixando o laço se afrouxar e romper).

Imagino isso tudo da seguinte forma, quando nascemos, além do acesso a festa que é a vida, ganhamos uma comanda pra ir registrando nossa consumação. Seu pagamento é feito no final da festa, quando se ficamos 21 gramas mais leves (não entendeu? clique aqui). Sobre a forma de pagamento, não sei dizer ao certo se é a vista ou a prazo. Mas sei que vários dos pedidos são pagos em tempo real (é o tal do aqui se faz, aqui se paga), talvez seja assim para amortizar a dívida final, ou simplesmente, pela dinâmica universal do equilíbrio.

Estou lendo um livro sobre o Jim Morrison(este aqui), do The Doors. Nele é abordada a influência de Rimbaud na música/vida de Jim. Achei na Internet uma matéria de Cláudio Vigo que fala disso um pouco (clique aqui pra ver na integra). Um trecho da matéria dele que me chamou a atenção foi:

“Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram na beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo. Pagaram caro, a ousadia de queimar em pouco tempo todos os cartuchos. Algumas coincidências, nestes percursos, são fascinantes. Anjos caídos de um inferno particular apontaram para o futuro e tocaram (sem a mínima cerimônia) os atalhos do absoluto.” (Cláudio Vigo)

No caso do Jim, em minha singela e costumeira analogia, acredito que sua conta ultrapassava e muito o quanto ele poderia pagar. Isso acarretou seu fechamento precoce. Semelhantemente ocorreu com Hendrix, Joplin e outros.

Enfim, antes de deixar o garçom (do livre arbítrio) anotar o pedido em sua comanda, certifique-se do que está pedindo e do preço que irá pagar por aquilo, lembrando que nunca temos certeza da forma de pagamento (se é em tempo real ou no final da festa).

É isso, em quanto está a sua comanda? Se for pouco, quer me ajudar e dividir a minha?

Abraço e até semana a próxima.

 

Extras:

Viper – 8 de abril

Titãs – Diversão

21 gramas, vida!

Imagem publicada em http://denisealves.files.wordpress.com

Num experimento feito em 1907, notou-se que imediatamente após a morte, o corpo humano perdia 21 gramas, daí, sem uma explicação lógica para isso, deduziram que seria o peso da alma. Quando ela morre, a alma se vai e o corpo perde 21 gramas. No filme 21 gramas , além da morte, é abordado como nossas vidas podem se cruzar e implicar uma série de situações em vidas de pessoas que desconhecemos totalmente. Outros filmes já abordaram isso também de uma maneira bem interessante, cada um à sua maneira: Crash, no limiteBabelA casa de areia e névoa, Pulp Fiction e  Efeito Borboleta – para citar somente alguns. Nisso, sem entrar no mérito dessa questão, apesar de eu acreditar que existe alma, não sei se com esse peso, aconteceu algo em minha vida dias atrás que me remeteu a essas duas questões: peso da alma e implicações ocasionadas por outras pessoas.

Pouco menos de duas semanas atrás, o corpo da minha avó ficou 21 gramas mais leve durante o soninho da tarde. Um dia antes disso havia sido o aniversário dela mas eu não havia me lembrado. No dia do ocorrido, no final da manhã, me lembraram que o aniversário de 81 anos dela havia passado e que seria comemorado no domingo seguinte. Como eu tinha duas reuniões naquele mesmo dia na parte da tarde, as quais eu imaginava que seriam tensas e estava concentrado nos assuntos, além de estar negociando o preço do meu playstation com um amigo naquele exato momento, deixei para telefonar para a vovó a noite.

A noite quando saí do trabalho para ir até em casa pegar o ps2 e entregar pro meu amigo, me ligaram dizendo que a vovó estava mais leve por estar num sono pesado. Na hora me senti muito mal por nao ter ligado mais cedo, quando tive oportunidade. Meu primeiro pensamento foi: corra pra lá para ajudar; o segundo pensamento foi de ir até em casa e concluir a negociação até mesmo para pegar o dinheiro e ver se poderia ajudar em algo naquela situação inesperada. De fato, foi possível ajudar.Quando o Danilo acertou comigo de comprar o videogame, creio que nem passava pela cabeça dele de que aquele dinheiro seria revertido para ajudar uma situação daquelas, logo, ações que fazemos e implicam em vidas que nem conhecemos. Pode parecer bobo, mas comece a reparar como isso acontece com frequencia em nossas vidas.

Outra ação que refletiu em vidas desconhecidas foi a do rapaz da funerária que cuidou da vovó durante a noite. Ele a buscou por volta de 21h, nisso, nos instruiu sobre a como leva-la do décimo segundo andar até o térreo do prédio, entretanto, mais do que isso, se mostrou bastante sensível àquela situação ao reparar nossa inexperiência no assunto e até mesmo a tristeza natural do momento. Quando os tios chegaram de São Paulo por volta de 0h, a primeira pergunta feita foi: cadê ela? Daí a explicação de que fazer o velório poderia ser um tanto cansativo considerando o todo o desenrolar da história desde a tarde, apesar de aceita, causou certa inquietação neles. Então telefonei para o rapaz da funerária  para tentar conseguir uma breve visita, a fim de confortar e acalmar alguns corações. Ele inicialmente foi resistente por já ser muito tarde, mas sensível à nossa dor, acabou aceitando. Essa visitinha noturna foi bastante agradecida no dia seguinte por um dos tios, creio que em função da paz que lhe proporcionou ver o semblante tranquilo estava no rosto da vovó, afinal, era da mãe dele que se tratava( e mãe, é mãe).

O outro ponto foi que por eu estar concentrado em tudo mais ao meu redor (trabalho, negócio$, seleção do mestrado, assuntos de casa e etc), posterguei uma ação boba, mas que faria toda a diferença para mim. Para a vovó, acho que seria bacana receber um telefonema atrasado de feliz aniversário. Mas para mim, faria diferença com relação a não me deixar sentir um certo remorso por ter colocado o trabalho e negócios na frente da família. Mas a vida é assim, uma surpresa a cada curva.

Nisso tudo, ficou pra mim a lição de tentar dar valor ao que realmente importa e ficar atento para reconhecer as oportunidades viver a vida de maneira mais humano e menos mecânica, me importando mais com os outros, mesmo em se tratando de coisas simples como um telefonema. Ficou também a lição de atentar para as implicações dos meus atos nas vidas alheias e dos atos de vidas alheias em minha vida, como a sensibilidade do rapaz relatada anteriormente. Por fim, viva, faça valer a pena a vida, pois não sabemos se os 21 gramas estarão conosco no próximo minuto.

ps.: sobre viver intesamente, para fechar o post num tom mais ameno, segue o clip de uma música que eu gosto bastante: Fugindo de Mim – Wilson Sideral.

ps2.: sobre ações de outras pessoas em nossas vidas, nessa semana me fizeram lembrar da música “You Give a Little Love“, a qual trata disso. Inclusive, foi feito um comercial de Coca-Cola usando essa música misturada à temática do game GTA. Confira ou relembre logo abaixo: