Vazio

vazio - (imagem retirada de binoculosdecego.blogspot.com)

vazio - (imagem retirada de binoculosdecego.blogspot.com)

Tanto tempo sem escrever aqui e o maior motivo era este: nada pra falar. Como ouvi certa vez: levamos cerca de dois anos para aprender a falar e o restante da vida para aprender a ficar calado. De certo modo, me peguei assim, vazio. Um vazio gerado pelo fato de ter ficado cheio.

Mudança de rotina de trabalho, de cidade, entre outras coisas, ocupou minha mente e esvaziou minhas idéias. Então resolvi ser egoísta e guardar meus pensamentos. Já haviam coisas demais publicadas no blog para se pensar sobre. No entanto, o vazio acabou me enchendo também, a ponto de ter que voltar a escrever. Tantos vazios que nem sei por qual começar:

  • a política que se repete num teatro infindável de interesses, velhos nomes se mantendo à margem da mídia para não chamar a atenção. Um escândalos atrás do outro, implicando em substituições e expectativas de melhoras que dificilmente serão atingidas. Me pergunto se algum dia isso foi diferente, mas tenho ficado cada vez mais instigado a não saber do que está acontecendo, pois a maior parte das notícias não são boas. Certo estava o Raul: “eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz, não quero ir de encontro ao azar”.
  • a sociedade lutando por valores duvidosos, recheada de interesses escusos. Nunca sei quando a subserviência bovina do povo está em prol de algo verdadeiro ou sendo mais uma vez usada como massa de manobra. Todavia, a parte mineira do meu sangue me faz desconfiar de tudo sempre.
  • sobre a religião, acho que nem comento mais pois vejo os dois pontos anteriores tão arraigados nela que desanimo. To mais inclinado pra teoria do personagem Syrio de A guerra dos Tronos: “existe apenas um deus e se chama morte. Temos apenas uma coisa a dizer pra morte: hoje não”.

Poderia citar outros, mas é sabido que vazio não preenche espaço. Assim, me parece mais útil falar de coisas que preenchem de fato: amar e ser amado, trabalhar com o que se gosta, lutar pelo que se acredita, estar com quem gostamos. Coisas simples, piegas e, inegavelmente, verdadeiras. Tal conjunto árduo de se reunir mas que motiva abrir os olhos cedo, saltar da cama e aproveitar cada momento do dia, sejam ele bom ou ruim, afinal, “não há o que lamentar, quando chega o fim do dia” (Arnaldo Antunes, canção Fim do Dia).

Antes de encerrar, cabe recomendar a música abaixo que eu atentei apenas nesse ano. Ela aborda um certo vazio existencial de uma maneira que soa atemporal. Conheço um punhado de gente que nos dias de hoje se encaixaria perfeitamente nestes versos.

É isso, pense sobre e até a próxima.

Ouro de Tolo – Raul Seixas

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês…

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73…

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa…

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa…

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado…

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto “e daí?”
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado…

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos…

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco…

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal…

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social…

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar…

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador…

Anúncios

aqui (ou pequenos prazeres da vida)

aqui (ou pequenos prazeres da vida)

aqui (ou pequenos prazeres da vida)

Dia desses, tarde da noite assistindo TV, vi uma entrevista (veja aqui) do Rodrigo Santoro na Marília Gabriela. Seria algo corriqueiro se não fosse pelo o fato de eles terem começado a falar sobre meditação, ou descanso pra mente, como ele mesmo diz no vídeo. Alguns argumentos da fala dele, um argumento em especial me chamou a atenção: que o cérebro não tem descanso(durante o dia, pensamos numa série de coisas, a noite, sonhamos e, apesar de não lembrarmos sempre, nossa mente continua trabalhando). A meditação, a grosso modo, seria um descanso planejado/programado para o cérebro, a fim de nos ajudar a estarmos “aqui“.

Nosso cotidiano costuma ser bastante corrido, sobretudo nas grande cidades. Vivemos num estado de ansiedade induzida (falei sobre neste post), ou seja, em boa parte do tempo estamos preocupados com o que passou ou com o que virá. Essa preocupação faz com que deixemos de lado o momento mais importante que é o aqui (agora). Não se trata de carpe diem ou de viver inconseqüentemente, mas sim de se concentrar no que estiver fazendo e viver (valorizar) aquele tempo, seja ele esplendoroso ou trivial.

Repare na fogo de abertura do post, o garotinho olhando os peixes no chafariz. Quando fotografei essa cena, pensei exatamente isso: o mundo pode acabar agora que na cabeça dele, provavelmente, só importa acompanhar a trajetória do peixe na água. Bem, ele poderia estar pensando em outra coisa, mas certamente algo relacionado àquele contexto. Imagino que ele não estivesse pensando na creche que teria que ir segunda-feira ou no que a professora havia pensado do desenho que ele havia feito na sexta-feira. Ele estava ali vivendo aquele instante, sem preocupações.

Obviamente que conforme caminhamos em direção à vida adulta, as responsabilidades tendem a aumentar significativamente. Diante disso, é natural certo nível de ansiedade e preocupação. O perigo está em ficar concentrado apenas nisso. É preciso relaxar e aproveitar os pequenos prazeres da vida e não restringir nosso viver.

Há uma canção sensacional do Arnaldo Antunes que fala a respeito de pequenos prazeres da vida chamada Num dia, vou colocar o clip e a letra abaixo. Ela possui vários versos importantes, vou negritar os meus favoritos.

Pense sobre seu aqui.

Até a próxima.

Num dia (Arnaldo Antunes)

Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água

Respirar
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Não esperar nada acontecer
Ser gentil com qualquer pessoa

Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima

Respirar
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Ter saudade no final da tarde
Para quando escurecer, esquecer
Ao se deitar para dormir, dormir (4x)
Dormir.

ps.: quando eu souber mais sobre meditação, publico um post apenas sobre o assunto. Por enquanto, fico com a lição de casa de aprender mais.