alimento pra cabeça – Parte II (consumo)

Alimente seu cérebro - Publicado originalmente em www.steveallentheater.com

Alimente seu cérebro - Publicado originalmente em http://www.steveallentheater.com

Continuação do post Alimento pra cabeça – Parte I.

Falar sobre consumo de cultura pode soar um tanto capitalista, mas o sentido pretendido é de que o alimento seja ingerido, digerido e o que, ao término, seja expelido o que não for aproveitável. Quando se faz uma dieta pobre em nutrientes, o corpo tende a ficar fraco, o sistema imunológico perde força, a disposição tende a ficar comprometida também. Além disso, o paladar sofre.

Houve uma época em que eu me alimentava mal a beça (mexidos de arroz, feijão, ovo e farofa pronta; miojo; biscoito recheado; salgados fritos vendido na rua e etc). Eram tempos difícei$, meus horários eram apertados (do estágio para o curso técnico; depois do estágio para a faculdade). O resultado disso foi que sempre que havia chance de comer comida bem preparada, fosse ela caseira ou não, eu me sentia numa orgia gustativa. Me sentia mais disposto e, porque não dizer, feliz/contente/satisfeito por ter alegrado meu paladar e meu olfato com o alimento rico, ora em sabor, ora em nutrientes.

Me parece que culturalmente funciona de maneira análoga. Temos a opção de ingerir alimentos pobres e a opção de ingerir alimentos ricos. Cabe a nós prioziarmos a qualidade em nossas vidas. Repare como é bastente fácil ir para a direção errada: fazer um miojo leva 3 minutos,  assim como ver um capítulo da novela leva cerca de 35 minutos (descontado o tempo com intervalos comerciais). Entretanto, fazer uma macarronada com frutos do mar leva mais que 3 mintos, da mesma forma que ler um livro, leva mais tempo do que 35 minutos (mas nesse caso, tem-se a vantagem de que o cérebro vai sendo exercitado imaginando as situações relatadas no texto, sentimentos dos personagens ou idéias lá expostas). Com isso, minha pretensão é tentar mostrar que vale a pena deixar se ser um sedentário cultural e optar por uma vida mais rica em idéias e pensamentos.

A vantagem de viver assim, alimentado culturalmente, é que você se prepara para a vida. Numa sociedade globalizada (que também responde pela alcunha de sociedade da informação), em as pessoas interagem frenéticamente, quanto mais bagagem cultural levarmos conosco, melhor. Afinal, esse vigor cultural proporcionado pela dieta correta poderá ser de valia desde uma mera entrevista de emprego, até a conversa de final de expediente com os amigos num bar.

Alimentar o cérebro não é tão complicado assim, só exige dedicação. Buscar boa leitura, música, filmes, programas de tv que sejam informativos além de divertidos. Veja bem, não estou dizendo para abrir mão da cultura inutil, afinal, é preciso dar uma relaxada de vem em quando, mesmo que isso custe a redução de uns 3 a 5 pontos de QI. Mas estou dizendo para olhar para a produção cultural, considerando a complexidade da sua produção, e aprender a apreciá-la.

Seja como for, alimente seu cérebro para mantê-lo trabalhando (para evitar alzheimer, por exemplo). Busque coisas novas e experimente, afinal, como a arte é universal, é bem provável encontar “alimentos” ricos e saborosos em outras culturas. Ah, não se esqueça de valoziar a arte pela maneira como ela lhe tocou e também pela complexidade de sua criação.

É isso, pense sobre.

Até mais.

Extras: como eu não soube encaixar isso no texto, segue algumas sugestões sobre como coletar cultura.

  1. Livros. Como é dito em todo canto, quem lê bastante, escreve melhor. Você há de concordar que escrever bem hoje é um diferencial no mercado de trabalho. Vá até uma livraria e veja nos assuntos do seu interesse o que tem de novo. Existem sites de recomendação literária, comunidades e etc. Confie em mim, algum livro vai cair no seu gosto e as páginas passaram voando pelos seus olhos.
  2. Música. a Oi FM, pelo menos em Vitória-ES, costuma fazer uma orgia musical, como eles mesmos chamam. São músicas de várias épocas e estilos. Então, há chance de encontrar algo que combine com seu gosto e que seja de qualidade. Dia desses ouvi a versão original de Nem vem que não tem, do Wilson Simonal (muito maneira por sinal).
  3. Filmes. Vale a pena acessar sites que tem falam especificamente sobre isso como o www.adorocinema.com
    Lá você poderá encontrar sinopses de filmes clássicos e de filmes mais atuais, seguidos dos comentários de quem já viu. Então poderá buscar alguma forma de assistir o filme e participar das discussão ou apenas ver se o que foi dito procede mesmo.
  4. Arte visual e artes plásticas: volta e meia acontecem exposições. É preciso ficar atendo a quando e onde. Se na sua cidade não tem, pesquise na internet pois existem sites com reproduções de pinturas e também imagens de esculturas. Mas se você tiver a chance, vá pessoalmente. Em janeiro, visitei um museu no centro de Porto Alegre, não me lembro o nome mas havia pinturas, esculturas, alguns textos em pintados como se fosse quadros. Tinha até umas pinturas de sacanagem mas retratadas como arte.  Muito maneiro tudo e olha que eu sou praticamente um analfabeto em termos de artes plásticas e visuais.
  5. Conversas, sempre. Converse com quem gosta e se interessa por cada cada tipo de arte. Assim, dá pra seguir aquele lema: “pessoas pequenas discutem pessoas, pessoas médias discutem fatos, grandes pessoas discutem idéias”. Você sai do lugar comum e troca idéias, conforme Richard Stallman disse:

“Se você tem uma maçã e eu tenho uma pêra e nós trocamos,

você fica com uma pêra e eu fico com uma maça.

Mas se você tem uma idéia e eu tenho uma idéia e nós trocamos,

ambos ficamos com duas idéias.”

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alimento pra cabeça – Parte I (produção)

Árvore de livros - publicado em www.techusers.org

Árvore de livros - publicado em http://www.techusers.org

na terça (09/03) fui a um café literário promovido pelo SESC. O tema era “A trajetória do livro: da edição ao leitor”. Me chamou a atenção a discussão sobre o ato de ser lido. Como você deve imaginar, sinto prazer em escrever os posts do Pense Sobre. Desfruto de cada momento desse ritual: do antes (quando fico matutando sobre o assunto ou conversando sobre ele com alguem); durante (quando procuro as mídias que irão ajudar a compor o texto – figura, músicas, clipes e etc); e depois quando vejo números de acesso ao blog. É muito maneiro isso tudo. Mas num blog, a coisa flui de maneira muito mais dinâmica, eu escrevo pelo um post por semana. São textos curtos que sempre trazem alguma imagem pra ilustrar o assunto.  Então você vem aqui, lê e pronto.

Mas com um livro, a coisa muda um pouco de figura. O escritor fica meses e meses cultivando seu material. Depois passa por mais uma via-crucis para editar e publicar o livro, seja com recursos públicos oriundos de leis de incentivo cultural ou seja por meio de recursos próprios. Por fim, tem a dificuldade de comercializar o livro já impresso. Se ele foi editado por uma editora grande, o valor da vendagem para o escritor tende a ser bem pequeno, porém ele não vai ter que se preocupar com a logística da distribuição dos livros para as lojas, nem com a divulgação. Mas se o livro for feito “artesanalmente”, comercializá-lo pode ser tornar um parto. Pensando no ponto de vista do consumidor, é difícil comprar um livro do nada, sem indicação de alguem, sem repercussão na mídia e sem saber do que se trata, logo, o escritor tem que batalhar para fazer a divulgação e tentar persuadir o leitor a provar da sua lavoura.

Eu disse isso tudo só pra tentar mostrar, ao menos um pouco, o quão difícil é produzir cultura literária. Não que as outras formas de arte não sejam complexas, pelo contrário, produzi-las também tem sua dificuldade. Inclusive, até é possível fazer uma listinha rápida do tipo de cultura, traçando um paralelo com o seu “cultivo”.

  • um album de rock (música) – compor as músicas, ensaiar, ir para estúdio, gravar cada instrumento sem errar, juntar as faixas, mixar, masterizar, prensar o cd. Sim, ainda tem que tirar fotos pro encarte, fazer a arte gráfica que vai ilustrá-lo e etc.
  • espetáculo teatral – escrever a peça ou buscar um texto já pronto (o que normalmente exige algum esforço de adaptação), selecionar o elenco, montar o figurino, conseguir o espaço para que o espetáculo seja feito, montar o cenário, iluminação, sonoplastia, divulgar, vender os ingressos e, é claro, dramatizar a peça propriamente dita etc.
  • filme de curta ou longa metragem – escrever o roteiro ou buscar algum já pronto para adaptá-lo(ou não), selecionar o elenco, escolher locações, fazer o story-board, gravar as cenas, editar as cenas, montar trilha sonora, juntar o audio ao vídeo pra montar a versão final e exibir (algumas coisas estou chutando, mas se algum leitor souber as etapas certas e quiser botar nos comentários, eu ficarei feliz em corrigir).
  • artes plásticas (pinturas ou esculturas) – pensar na forma que se deseja produzir (esculpida ou pintada), reunir os materias necessários (tela e tintas para pintura ou o material da escultura), trabalhar em cima da obra para fazer a parte bruta e depois o acamento, por fim, fazer a exposição da obra.

Bem, continuando com minha mania de fazer analogias, produzir cultura, em alguns casos, leva tanto tempo e requer tanto cuidado quanto produzir alimento. Afinal, fazer nascer uma um grão de feijão num algodão é bastante fácil, mas isso não é suficiente pra alimentar. Seguindo essa linha de pensamento, posso dizer que apenas um livro, ou um album, ou um filme, ou uma pintura também insuficientes para a alimentação cultural de um indivíduo. Logo, dieta do intelecto demanda que seja criado um hábito de alimentação cultural, o qual prime por alimentos de qualidade. Mas para garantir que a dieta seja rica, é preciso aprender a apreciar cada tipo de arte de acordo com a complexidade da sua produção e com a intensidade com que nos toca.

Sobre produção cultural, era isso.  Veja também a continuação desse post [alimento pra cabeça – Parte II (consumo)] que fala sobre o consumo propriamente dito.

Até mais.

ps.: Por desencargo de consciência, esclareço que coloquei a foto da árvore de livros para fazer analogia do cultivo da cultura com o cultivo de alimentos.