natal (e os fantasmas de Scrooge)

Natal Tropical
Natal Tropical

O natal vem vindo, vem vindo o natal. Alegria, festas, piadas de duplo sentido com a ave natalina. Essa época tem tudo pra ser adorável, mas conheço várias pessoas que não gostam. Todavia, não tem jeito, não se pode excluir o dia 25 de dezembro do calendário, consequentemente, nem a noite que o precede.

Nessa época, é natural que os sentimentos fiquem à flor da pele. Isso acontece porque começamos a ponderar sobre o 2010 e a sonhar para 2011. Todos os sucessos e fracassos do ano são resgatados e devidamente organizados na balança que vai determinar se ele foi feliz, como desejado no reveillon passado. No entanto, existe uma tendência inata das pessoas se fixarem mais aos pontos negativos do que nos positivos. Tal fato fica ainda mais evidente se houver ocorrido algum problema recentemente. Logo, a chance do peru ficar de fora das festas e o natal pagar o pato aumenta consideravelmente.

Por outro lado, é bem verdade que existem algumas situações chatas que precedem a noite natalina:

  • as pessoas tendem a ficar sensíveis (em demasia, isso pode ser ruim)
  • parentes de longe montando acampamento em casa
  • participar de amigo x apenas por educação
  • enfrentar lojas lotadas e a correria para os preparativos da festa
  • sensação de que podia ter feito mais pelo próximo ao longo do ano diante de cada campanha solidária de final de ano
  • alguns quilinhos a mais devido às orgias gustativas
  • e etc

Entretanto, há também a parte boa:

  • as pessoas tendem a ficar sensíveis (na medida certa, isso é bom)
  • rever os entes queridos
  • comer coisas gostosas
  • dar e/ou ganhar presentes
  • viver o espírito natalino em sua essência, lembrando que é uma data que simboliza, principalmente, o amor não tristeza, solidão, consumismo e etc.

Haveria ainda um caminhão de vantagens e desvantagens para citar em relação ao natal, mas a idéia central é chamar a atenção para o fato de que é uma data especial, tanto que é festejada em boa parte do mundo. Um detalhe importante é que você não precisa estar perto da sua família para que esta data faça sentido. Lembre-se que pra ser família, não precisa ter conta sanguínea, basta haver sintonia (como foi dito neste post aqui). Logo, é possível tentar fazer algo bacana com quem quer que seja, desde que haja vontade. Valendo inclusive fazer a alegria de outras pessoas no natal (orfanatos, asilos, instituições para portadores de necessidades especiais e etc). Isso sim é o símbolo máximo do natal.

Os fantasmas de Scrooge
Os fantasmas de Scrooge

Há um filme chamado Os fantasmas de Scrooge (clique aqui pra saber mais) baseado no livro ‘A Christmas Carol‘ de Charlie Dickens. No filme, o protagonista se chama Ebenezer Scrooge e é interpretado pelo Jim Carey. Na história, ele é visitado por três fantasmas no natal: o do passado, o do presente e o do futuro. Tais visitas fazem com quem Scrooge reflita sobre sua postura com o natal. Nessa época do ano, é um filme bastante legal de se assistir, sobretudo se você não gosta de natal.

Portanto, reclamar do natal me parece perda de tempo. Imagino que seja mais interessante aproveitá-lo da maneira que for possível (e isso vale pra praticamente tudo na vida).

Pense sobre e feliz natal. Até a próxima.

ser irmão caçula

Weto e Nino

Irmãos

Dizem que o primeiro filho é sempre o mais desejado e o mais querido, talvez haja algum fundo de verdade nisso, mas ser filho caçula tem lá suas vantagens. Pra começar, não existe um manual prático de criação de filhos, então os pais aprendem este sublime ofício praticando com o o filho mais velho.  Sendo assim, é a partir do primogênito que os pais aprendem a amar, a cuidar, a educar e etc. Portanto, é razoável que ele seja o mais querido, para compensar seu papel de “test-drive” dos pais.

A vida de filho mais velho não é fácil, pelo fato de não ter modelos para seguir, ele precisa aprender a se virar. Além disso, ele não tem com quem brincar em período integral – isso até que o(s) irmão(s) mais novo(s) chegue(m). Na fase escolar, não tem alguém para ensinar o dever de casa, caso se envolva em alguma confusão, sem ter quem o defenda, levará porrada sozinho (claro que os pais podem ajudar nisso tudo, mas o fator cumplicidade entre irmãos inexiste até então). Quando está na fase de namorar, não tem quem o ensine o caminho das pedras. Quando começa a trabalhar, vai descobrindo sozinho os desafios do mundo do trabalho. Claro que ao longo da vida, ele vai fazendo amigos que compartilham momentos semelhantes e que podem trocar experiências, mas não se compara a ter um irmão mais velho.

Quando se é o irmão mais novo, além dos pais, há o irmão mais velho para amenizar o impacto que a vida nos causa.  Em função da orientação dos pais e/ou pelo próprio instinto, o irmão mais velho tende a assumir o papel de protetor. Talvez em função disso, o irmão caçula tenha amadurecimento tardio. Nesse contexto, o comportamento protetor da família torna-se ruim.

Na imagem de abertura do post, repare o irmão caçula completamente alheio ao momento da fotografia. De certo modo, a vida do irmão caçula consiste em correr atrás das borboletas enquanto a do irmão mais velho é ficar atento aos perigos da floresta para proteger ambos. O choque ocorre quando o irmão caçula segue o curso de sua vida sozinho. O mundo leve fica para trás e os cenários passam a ser vistos também pelos bastidores. Diante disso, sua postura irá definir a intensidade do choque com o mundo real. Buscar proteção na barra da saia da mãe ou com os irmãos criará uma pseudo sensação de segurança. Encarar a vida como ela é, viver e descobrir a dor e a beleza de ser quem é são fundamentais para um processo de aprendizagem sadio que leve à uma auto-construção sólida.

O nascimento é a exceção à regra da matemática que diz que  a ordem dos fatores não altera o produto. A pessoa, enquanto produto do meio em que vive, aparentemente é, de fato, alterada pela sua ordem de nascimento.

É isso, pense sobre.

família

Publicada em Diario da Incerteza
Família

ainda no clima do aniversário,  recebi algumas pessoas pessoas queridas em casa para fazer um oba oba. Foi uma coisa simples, até mesmo porque tentar colocar mais de 20 pessoas em 30 metros quadrados desafiaria as leis da física. A idéia se resumia a um final de tarde com esfihas, torta de limão, jogos de tabuleiro e muita conversa. Apesar da simplicidade da coisa, a alegria proporcionada por aqueles momentos me lembrou a sensação gostosa de almoço de família. Nisso, lembrei daquele comercial da Sadia que fala sobre as várias famílias que vamos compondo ao longo da vida.

Enquanto seres sociais, temos necessidade de interações com outras pessoas. Dias atrás, ouvi uma frase que dizia mais ou menos o seguinte: “o homem é o único animal com possibilidade plena de viver independente dos outros, mas é o mais dependente em função dessa necessidade de interação”. Essas interações podem ocorrer de diversas formas:

  • falando sobre futebol na fila para cortar o cabelo
  • no trabalho, aproveitando lacunas de distração entre os momentos de seriedade  para falar sobre diversidades como brinquedos de criança, férias, coisas do cotidiano, formula 1, trânsito e etc
  • no almoço vendo tv no restaurante e falando sobre aquele suco que são tem efeito laxante – manga no meu caso :(
  • no cafezinho da tarde, falando trocando experiências das mais diversas, desde coisas do trabalho até perder placa de carro em enchente
  • e por aí vai…

Mais do que isso, é importante que façamos parte de algo. Sabe aquela sensação boa de olhar pra uma pessoa e dizer: ei, você estudou no Arthur da Costa e Silva? E a pessoa dizer: Sim! Ou então: ei, você também nasceu em Capão Redondo? E a pessoa dizer: sim, lá na quebrada, rs.  Pois é, inconscientemente, vivemos buscando afinidades nas outras outras pessoas. Com exceção das mulheres que querem morrer quando acham alguma roupa ou acessório igual em outras, o ser humano se sente bem ao encontrar pontos em comum com outras pessoas: torcer pro mesmo time, trabalhar no mesmo lugar, morar no mesmo bairro. Acho que é algum tipo de instinto de clã* que gera em nós essa necessidade de pertencer a algo maior. Uma vez que pertencemos, temos que ‘vestir a camisa” e defender nosso clã com unhas e dentes.

Seguindo… ouvi ou li certa vez que o ser humano é fruto das relações que constrói. Creio que deva ser verdade  porque hoje  vejo em mim coisas que “herdei” de famílias que participei ou que participo. Alguns traços de personalidade que eu até condenava, hoje consigo entender seu significado e, por várias vezes, acabo copiando involuntariamente. A convivência nos proporciona essa mutação. Há que se desenvolver senso crítico para levar na bagagem apenas o que é construtivo. Tal desenvolvimento, me parece, ser um exercício que deve ser feito ao longo de toda a vida. Lá na terra da minha mãe, eles chamavam isso de Desconfiômetro.

Chamo a atenção para o seguinte fato, as famílias estão por aí, dispostas de diversas formas e prontas para nos receber de braços abertos. Basta estarmos em sintonia, como diz a letra daquela  música maneira do Rappa:

Não Perca As Crianças De Vista

“Família é quem você escolhe pra viver
Família é quem você escolhe pra você
Não precisa ter conta sanguínea
É preciso ter sempre um pouco mais de sintonia”

A Família - de Tarsila do Amaral
A Família – de Tarsila do Amaral

Indo mais além nesse assunto,  já ouvi várias vezes que a  família é o berço da sociedade.  Mas pensando que podemos partilhar de várias famílias, poderíamos dizer que sociedade então é um berçário? E mais, neste berçário, nem todas as crianças são lindas, bem como, nem toda família é perfeita, mas isso nos proporciona oportunidade de crescimento pessoal, no sentido de podermos trabalhar as diferenças entre o nosso universo e os dos nossos “parentes”, sejam eles de conta sanguínea ou não – se você não entendeu o lance da conta sanguínea, ouça a música maneira do Rappa que eu falei agora pouco :D.

Pra terminar, várias músicas falam sobre família, tem essa do Rappa, tem uma bem legal e um tanto quanto melancólica do Cramberries chamada Ode to family. Tem uma bem pra cima do Sister Sledge (pelo nome nem eu sabia quem era,  mas ouvindo você irá reconhecer) chamada We Are Family. Pra fechar, tem a canção Família do Titãs com um clip maneiro com desenhos e pinturas de  família inclusive com essa figura ao lado.

Então, pense nisso.

* Resolvi falar de clã e dessa questão de fazer parte de algo pois esse sentimento vem forte toda vez que ouço a canção The Clansman do Iron Maiden desde o rRock in Rio 2001 quando ouvi a primeira vez (momento tiração de onda do autor ;-P ). Bem, tomara que não tenha fugido muito do tema do post.