50 anos a mil

Lobão, 50 anos a mil - publicado em sarkosi.com
Lobão, 50 anos a mil – publicado em sarkosi.com

“Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram na beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo. Pagaram caro, a ousadia de queimar em pouco tempo todos os cartuchos. Algumas coincidências, nestes percursos, são fascinantes. Anjos caídos de um inferno particular apontaram para o futuro e tocaram (sem a mínima cerimônia) os atalhos do absoluto.” (Cláudio Vigo, em Rimbaud e Morrison)

Sempre achei o Jim Morrison um cara foda, mas depois que li a biografia do Lobão, comecei a ver o Mister Mojo como um moleque. Brincadeira, ainda sou um grande admirador do King Lizard, todavia, ter no Brasil um cara que superou a marca mortal dos  27 anos e  que ainda carrega vigorosamente a bandeira do Rock and Roll me dá um orgulho enorme.

Num post passado (clique aqui para ver) comentei que li um livro clipping do Jim Morrison (esse aqui). Nele, algumas questões delicadas da vida do cantor são relatadas como a relação dificil que ele teve com seu pai que era militar da Marinha dos Estados Unidos, sua brilhante e inacabada carreira acadêmica na faculdade de cinema, e seu questionamento constante perante a hipocrisia da sociedade (sistema). Por essas e outras, estimo o artista.

E o Lobão? Vários sentimentos passaram por mim ao ler sua biografia: constrangimento de saber tão pouco de um cara que fez e faz tanto pela cultura nacional; vergonha de ter sacaneado por vários anos um mega fã dele (o Neno) que me emprestou o violão no qual comecei a aprender a tocar; orgulho por ser contemporâneo de um artista brasileiro tão significativo (temos tão poucos ídolos de verdade); além da alegria com as várias risadas que dei ao longo do livro em seus episódios inusitados.

Uma das maiores tolices que se pode fazer é criticar algo sem conhecer direito. Isso vale pra diversas áreas da vida. No caso do Lobão, um estigma criado pelo Estado e pela imprensa marrom fez com que ele se tornasse um pária no rol dos artistas contemporâneos. Mas o que ele fez para merecer isso? Simplesmente questionou uma série de dogmas sociais, culturais e políticos. Considerando que vivemos num país que estimula as pessoas a não pensar, que valoriza a mediocridade e aceita a ignorância como uma uma benção, a rechaça ao Grande Lobo é algo absolutamente esperado e “natural”. Nesse contexto, o grande mérito do livro dele é mostrar o outro lado da história, talvez tendencioso, mas que serve de referência. Afinal, há quem diga que pior que não ler jornal é ler apenas um.

Outra coisa bem legal de ler o livro é entender o contexto que as músicas foram compostas. Pra quem mexe com criação, isso é deliciosamente divertido. Digo isso pois minhas poesias surgem em contextos diversos (se não conhece o blog de poesias, passe lá depois clicando aqui), normalmente inspiradas por situações que me soam como pontos fora da curva. Por exemplo, o último escrito em condições assim se chama Mais Fácil (veja aqui). Voltando ao Lobão, um exemplo disso que falei é Noite e Dia (clique aqui pra ver) que ele escreveu junto com o Júlio Barroso para a Alice Pink Punk que era namorada do Júlio e que veio a ser namorada dele. Outro exemplo é a famosa Me Chama (clique aqui para ver) que foi escrita em seu retorno solitário da Holanda após uma viagem com a Alice, que teve que ficar lá devido a razões pessoais. Por fim, a declaração de amor musical chamada Vou Te Levar (clique aqui pra ver) escrita pra Regina, esposa dele, após um momento extremamente difícil, leia o livro e veja do que estou falando.

Por fim, outra vantagem de ter uma lenda viva é poder apreciar sua obra enquanto ela está sendo produzida e não algo curtido. Além disso, existe a possibilidade de interagir com o artista pois o Lobão também tem um perfil no Twitter (@lobaoeletrico). O mesmo não pode ser feito com o Jim Morrison a menos que seja encontrado um centro espírita excepcional.

Contrariando a máxima de James Hetfield de que “a chama mais brilhante queima mais rapidamente” (veja esta referência no final deste post), o Lobão tá aí , vivendo a mais de 50 anos a mil. Ele é libriano, é intenso, é confuso, é inteligente, é persistente, é dramático e tem uma história fantástica. Ele inclusive exemplifica a fala do Paulo Coelho em o Aleph que diz o seguinte: “quem é comprometido com a vida nunca para de caminhar“.  Enfim, é um exemplo para todos nós.

Salve o Grande Lobo.

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reinvenção (sem teto, Edredon, luz humana)

Lost in translation - publicado em www.releaseee.com
Lost in translation – publicado em http://www.releaseee.com

Eu sempre quis fazer um post sobre o filme Encontros e Desencontros (Lost in translation), isso porque ele é meu filme favorito depois de Into the Wild, mas ainda não vai ser hoje. A imagem de abertura é pra representar a apatia do protagonista que passa alguns dias num quarto de hotel e não consegue se adaptar ao fuso horário do Japão.

Você já se sentiu deslocado? Recentemente estive numa situação parecida. O curioso foi o processo que me levou a essa sensação. Como comentei  superficialmente em outros posts, deixei Vitória-ES para fazer mestrado em Ponta Grossa-PR. Após o insucesso pessoal/emocional e profissional do ano passado, a oportunidade de mudar os ares se apresentou como ótima possibilidade de reinvenção.

Munido de excitação e ansiedade, iniciei minha peregrinação um mês antes do início das aulas para dar uma passeada, rever pessoas queridas e conhecer lugares bacanas. Então desci de Vitória para Cabo Frio e conheci a famosa região dos lagos no Rio. Abro um parêntese aqui para tecer algumas percepções acerca daqueles lugares: Búzios é bonito mas é mais badalação e ostenção do que qualquer outra coisa; Cabo Frio é bonito, tem preços legais e uma gama de turistas bem diversificada. Arraial do Cabo tem uma infra-estrutura bem mais simples que Buzios e Cabo Frio,  porém tem um mirante sensacional e também a praia mais bonita que já vi, chamada Praia do Forno (clique aqui e veja uma foto de lá).

Após algumas dias explorando aquela região, segui para o Rio onde reencontrei pessoas queridas e pude assistir o Show do Lobão no Circo Voador! Ok, aparentemente não tem nada demais nisso, todavia já devo ter comentado aqui que adoro estar em lugares que tiveram alguma importância histórica. O Circo, se não for o berço, é a maternidade da música nacional. Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho e tantos outros grandes astros do Rock Nacional passaram por lá diversas vezes, isso sem contar artistas de outros estilos. Me parece que toda a energia advinda da atmosfera boemia da Lapa converge de algum modo para o palco do Circo Voador. Somado a isso,  estou lendo a biografia do Lobão, lançada no ano passado. Nela, toda a insurgência dele diante da sociedade e dos meios de comunicação é despida, juntamente dos seus porquês e contextualizada no tempo. Dessa forma, fica-se perceptível como os momentos político e econômico do país ao longo da história influenciaram sua arte e consequentemente outras vidas por meio dela. Portanto, estar li diante de uma lenda viva é no mínimo um privilégio, sobretudo pra minha geração que participou de pouquíssimos ou nenhum momentos marcantes na história contemporânea. Do show, eu devia conhecer umas 4 ou 5 músicas, mas o Grande Lobo segurou o show tão pra cima o tempo todo que precisei sair alguns instantes pra tomar um ar puro =D

Com minha pilha mais do que carregada, segui viagem pra São Paulo e fui direto rever meus irmãos mais velhos que trabalham na IBM no interior de São Paulo. Nesse reencontro, notei que somos mais parecidos do que eu imaginava, apesar da nossa diferença de idade passar de 10 anos. É engraçado como o código genético determina o grau de ebulição do sangue, no nosso caso, em temperaturas extremamente baixas. Do encontro com meus familiares, notei também que obstinação é outra característica da nossa família e também me inspirei pra fazer o post anterior (rei do nada, clique aqui pra ver).

Por fim, cheguei a Ponta Grossa e fiquei alguns dias numa república. Como morava sozinho em Vitória e carregava comigo o desejo de me reinventar aqui no Paraná, tratei de procurar um lugar só pra mim a fim de poder fazer isso com mais privacidade. Entretanto, por ser de outra cidade, tive algumas dificuldades com o processo de locação e o trâmite todo levou cerca de duas semanas. Aproveitei esse hiato burocrático da imobiliária e fui até Floripa rever um casal de amigos mega queridos. Lá acabei pegando mais algumas informações pra terminar de escrever o “rei do nada”. Nesse interim, seguindo meu ímpeto de reinvenção, aproveitei pra fazer minha tattoo em homenagem ao blog e ao mestrado, cujo desenho estava pronto desde o ano passado.

Tá, o que tudo isso tem a ver com a imagem de abertura do post? Eu explico e já concluo esse post kilométrico. Retornei de Floripa e pra minha surpresa, o processo de locação ainda não havia sido concluído, sem casa pra alugar e sem republica pra ficar, fui parar num hotel. Daí me bateu uma sensação de férias sem fim, rodando há praticamente um mês com minha “casa” dentro do carro, comecei a me sentir um cigano, pegando lacunas de hotel em hotel por não ter reservas prévias.

Bom, finalmente consegui o apartamento, um até melhor do que eu estava vendo anteriormente. Daí pude começar a mobiliar minha base de estudo pro mestrado, o qual já havia iniciado. Além disso, comprei o Edredon, meu filhote de daushhund, que eu tava cercando no pet shot desde quando cheguei ao Paraná e o vi na vitrine da loja.

Por essas e por outras que o blog ficou sem ser atualizado por um bom tempo. Minha reinvenção é essa, morar onde eu queria, fazendo o que queria com quem eu queria. Essa série de realizações de agora são sonhos que venho sonhando há um bom tempo. É bem verdade que não tem sido fácil, mas as dificuldades que surgem tem sido bem gostosas de se enfrentar.

Como puderam perceber, esse post não tinha grandes pretensões, foi mais um depoimento para aqueles que perguntaram porque o blog estava meio abandonado. Agora devidamente instalado na base paranense do pensesobre, vou conseguir manter a frequência semanal de publicações. O temas que já venho pensando são: Mestrado e carreira acadêmica; O Aleph do Paulo Coelho e 50 anos a mil do Lobão. Muito provavelmente virão nessa ordem.

É isso, grande abraço.

ps.: O lance sobre luz humana que está no título tem muito a ver com esse momento, mas eu já comentei no post Even Flow, Inside Job (veja aqui).