Imprevistos II: limonada ou tacape?

Um dia em Brasília

Um dia em Brasília

Sei que a imagem de abertura do post não está fabulosa, mas peço que deem um desconto pois as fotos foram tiradas com uma webcam e o GIF foi montado online. Pois bem, a continuação desse assunto se deve ao que aconteceu comigo semanas atrás.

Era uma viagem a trabalho que começou numa segunda a noite e  que terminaria na quinta a noite. Mas ocorreu que na quinta a noite (29/10), devido ao mau tempo em Vitória, o avião não decolou de Brasília. Depois de muito falatório dos passageiros com os atendentes da TAM, foi dado a cada passageiro os Vouchers de hospedagem e alimentação, para que pudessem aguardar até o dia seguinte, quando o voo partiria normalmente. Os passageiros mais bravos eram os que estava tentando embarcar desde quarta-feira. O grupo em que eu estava não quis unir voz ao barraco dos demais por entender que isso não faria a chuva parar em Vitória. Além disso, uma das alegações da TAM foi que não seria possível colocar um voo extra pois, ao contrário do transporte rodoviário, um voo precisa ser submetido à ANAC para que possa ser aprovado ou não, dependendo das condições do espaço áreo no trajeto e horário que o voo for planejado. Não sei se isso é verdade, mas me parece fazer sentido.

Além dos Vouchers, a companhia liberou ainda algumas vans para fazer o translado até o hotel em que ficaríamos. Nisso um amigo disse que Tam era uma Mãe por dar hospedagem e translado pra gente que nem estava em conexão. Alguns fariseus continuaram reclamando durante o trajeto até o hotel, dizendo que era uma safadeza o avião não decolar e etc etc.

Chegando ao hotel, foi tudo super tranquilo: apresentar o voucher, pegar a chave, deixar bagagem no quarto e ir para o jantar. Jantar sensacional, diga-se de passagem. Tinha muita coisa gostosa e de quebra o Pudim de Leite JK, receita da família Kubitschek. As mesas se dividiam entre os semblantes que ainda estavam reclamando do voo não ter decolado e dos que já haviam aceitado a idéia e estavam curtindo a comidinha por conta da mamãe Tam.

No dia seguinte no café, um grupo decidiu ir fazer o city tour que o hotel oferecia, outro preferiu ir fazer barraco no aeroporto e do restante eu não sei pois eu acho palha negócio de ficar cuidadndo da vida alheia. Ao cair da noite, a mamãe TAM ligou para o hotel dizendo que o voo não iria sair pois persistia o mal tempo em Vitória. Ela recomendou que nem fossesmos ao aeroporto a fim de evitar transtornos. Nós fomos dar uma volta num shopping lá perto. Outras pessoas foram até o aeroporto verificar como ficaria a situação – deram um belo passeio, reclamaram e voltaram estressadas.

Tinha um casal de uns 40 e tantos anos, que a cada dia que o voo era cancelado, vibrava. Eles estavam voltando de viagem daí, segundo o marido estava dizendo que eles ganharam uns dias a mais no pacote graças a esse presente dos céus.

Outro rapaz que morava em Brasília, ligou para seus conhecidos e foi sair com eles. Um outro senhor que estava vindo de Maceió disse que iria aproveitar o hotel pra dar uma descansada. Ele trabalhava em embarcado numa plataforma de petróleo.

O avião continuou não decolando nos dias posteriores, o clima em Vitória melhorava durante o dia mas a noite, talvez pela queda de temperatura, formava muitas nuvens e não dava visibilidade para o aeroporco aeroporto  mínusculo da nossa cidade.

Aí, por mais confortável que a estivesse ficar lá, os ânimos começaram a mudar, quem tava tranquilo começou a meio injuriado e quem tava puto, começou a surtar. Teve um grupo que topou uma alternativa da mamãe que era ir para o Rio de Janeiro e pegar um microonibus para Vitória. Essa era a opção com emoção, uma vez que havia ocorrido deslizamento de terra na BR 101, que liga o Rio a Vitória. A opção sem emoção era esperar o voo direto de Brasília para Vitória. Eu fiquei com o grupo que queria voltar para casa sem emoção.

Na segunda-feira, um passageiro teve a idéia de ir ao aeroporto e conversar com a mamãe alegando que já se passara 4 dias de cancelamentos e uma outra alternativa deveria ser vista, considerando que durante o dia, os voos estavam chegando a Vitória. No aeroporto de Brasília, cercamos um funcionário da mamãe e falando com ele sobre essa questão. Ele, de maneira super cordial,  orientou fazer um procedimento “alternativo” que era reservar uma passagem como se fosse comprar uma nova. Depois apresentar a reserva e a passagem antiga, assim eles poderiam fazer o encaixe em outro voo. De outro modo, não seria possível fazer o encaixe. Mesmo toda a cordialidade dele não foi suficiente para acalmar o ânimo de todos os passageiros, haja visto que alguns quiseram desabafar com ele falando um monte sobre a mamãe e por pouco, sobre a mãe dele (atentem para isso pois vou comentar sobre logo adiante). Pois bem, fizemos a troca das passagens, pegamos o voo do outro dia de madrugada e viemos para Vitória em paz e em segurança, que era o mais importante do que chegar em meio a turbulência e/ou ausência de visibilidade de modo que o avião corresse o risco de fazer todos que estavam a bordo perderem  21 gramas num imprevisto trágico.

Disso tudo, o que me vem é que não importa a situação que se esteja, tem gente que simplesmente não consegue vislumbrar as coisas boas da vida em meio as adversidades. Elas ficam ruminando as frustrações e, de certo modo, contagiando (ou ao menos tentando contagiar) os demais ao seu redor. A exemplo, quando o rapaz da Tam nos apontou a maneira como viabilizar a saída de lá e mesmo assim ficaram reclmando como ele como se ele. Parecia que ou ele não havia dito nada ou que ele havia mandado todo mundo se catar. Grosserias gratuitas assim são tão estranhas que me vejo  procurando um tacape para voltar em paz para minha caverna e me defender dos homens e mulheres da caverna que existem por aí. Penso isso por não acreditar que esse tipo de atitude seja própria numa sociedade supostamente esclarecida como a nossa. É questão de se colocar no lugar da outra pessoa, como o próprio funcionário da TAM se pôs no nosso e nos deu a dica, enquanto escondia seu crachá, afinal aquele procedimento não era a orientação oficial da companhia. Acredito que às vezes fazemos coisas estúpidas simplesmente por não nos colocarmos no lugar de nosso(s) interlocutor(es).

Teve um passageiro tão cavalo que no dia anterior a esse da troca, rasgou a passagem dele na frente da moça da Companhia Área dizendo que se não dava pra tocar, que pegassem a passagem enfiassem no… Aí eu pergunto, tem necessidade disso? Imagino a moça saindo de casa de manhã pensando: “vou eu pro meu trabalho querido ouvir desaforos de gente que não conheço em função de motivos que não são minha culpa”. Certamente ela não pensa isso, imagino que ela pense: “vou eu pro meu trabalho trabalhar mais um dia pra ajudar pagar a faculdade ou o curso de comissária de bordo que custa 2 mil reais(sei lá né, imagino que se se ela já trabalha com aviação, pode ser que tenha esse sonho). O trabalho não é fácil, mas a vontade de vencer estimula a continuar”. Talvez se ela pensar assim, consiga suportar melhor pessoas com o Sr. Equíneo que falei no início do parágrafo.

Entretanto, tem gente maneira, que consegue tirar proveito mesmo das coisas inglórias. É aquela clichê do: “não se prenda ao azedo do limão, em vez disso, faça uma limonada”. ( O que seria da nossa vida sem esses clichês?). Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a fala de um amigo de trabalho na volta que mudou a percepão pouco otimista que eu pensava que ele tinha diante das coisas da vida no dia a dia. Ele disse algo mais ou menos assim:

“rapaz, a Tam é uma mãe porque nos colocou num Hotel 5 estrelas, é um pai além da comida boa, o quarto até banheira e é família toda porque nos mandou de volta com a passagem com milhas Top em vez de Light como era antes(com aquele sorriso de: vamos ganhar milhas pra caramba)”.

Enfim, imprevistos acontecem, faz parte da dor e da alegria de se viver e o que der para fazer de maneiro quando isso acontece é o que vale. Já agi mais como um homem das cavernas e como o Sr. Equíneo, hoje tento segurar minha onda e pender para o lado das pessoas maneiras que fazem a limonada e refrescam os dias duros de sol. Do resto, não sei dizer.

ps.: as imagens de abertura do post eu tirei do quarto do hotel em dias diferntes horas diferentes, ao longo dos 4 dias que ficamos a mais.

ps2: prometo tentar escrever menos de 1000 palavras no próximo post, assim tento fazer o texto não ficar tão extenso.

ps2.: Escrito ao som do album Super Extra Gravity do The Cardigans.

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